As pancadas de chuva, isoladas, que atingiram praticamente todos os municípios do noroeste paranaense neste domingo, não somente foram insuficientes, como chegaram tarde, para salvar o trigo plantado na região.

Na maioria das propriedades que destinaram áreas à cultura a colheita já foi iniciada ou as espigas estão em estágio de amadurecimento, não dependendo mais da chuva. Em outras, onde o plantio foi tardio e as plantas ainda estão na fase de preenchimento dos grãos, a umidade no solo ainda é útil, mas a produtividade já foi comprometida e será bem menor do que a esperada.

Tanto os técnicos das cooperativas quanto os próprios produtores calculam que a estiagem de um mês e meio resultará em uma quebra em torno de 20%. O produtor Adilson José Abrão, que planta na Gleba Guaiapó, diz que devido à falta de umidade a formação dos grãos não está boa e a quebra se verificará na balança. Mesmo colhendo boa quantidade, os grãos deverão estar mais leves do que o normal por causa do preenchimento irregular.

O técnico agrícola Moacir Andrade, da Cooperativa Agroindustrial de Mandaguari (Cocari), explica que com a falta de umidade no solo, as plantas não se desenvolvem bem e que, além disto, em muitas propriedades verifica-se a morte de perfilhos, ramos com espigas que surgem a partir do caule principal.

Na região de Marialva e Mandaguari, onde está a maior parte dos trigais da região, também é esperada uma quebra superior a 20%.

"Não posso dizer que a produtividade está decepcionando porque já prevíamos queda desde que permaneceu muito tempo sem nenhuma chuva significativa", disse ontem o produtor Julio Mochi, que com o pai, Erculano Mochi, e o irmão Jean, plantou 140 alqueires de trigo em uma propriedade da região do Vale Azul, em Sarandi. "Mas a quebra parece que será maior do que a esperada".

Os Mochi, que estão concluindo a colheita, estão conseguindo uma média de 120 sacas por alqueire. Embora o volume seja "bom", quando comparado com o que está sendo colhido em outras regiões, é 20% menos do que as 150 sacas esperadas.

"Na medida em que a colheita vai avançando, pode-se colher ainda menos, já que a planta ficou mais tempo sem chuva", menciona Julio.

Preço ruim

Toda a produção dos Mochi foi depositada na Cooperativa Integrada, entretanto, nem ao menos um grão foi vendido. "Vamos esperar por uma melhora nos preços, como estão fazendo outros produtores, mas não se sabe se isto é seguro, pois os preços do trigo são imprevisíveis, tanto podem subir, quanto cair".

Ontem, a saca de 60 quilos de trigo era vendida em Maringá a R$ 36,50, valor bem melhor do que os R$ 31 do início do ano. No entanto, o preço segue bem abaixo dos R$ 40 e até R$ 42 (queda de 14%) do ano passado e ainda menor com os R$ 53 da safra de 2015 (redução de 32%).

Dessa forma, no valor atual, o produtor não pode contar com grande lucro, já que pelo menos 75 sacas de cada alqueire serão para cobrir os custos de produção.


PERDA. Julio Mochi plantou 140 alqueires de trigo em uma propriedade na região do Vale Azul, em Sarandi, e não está otimista. Segundo ele, a quebra deve ser maior que a prevista. —FOTO: JC FRAGOSO

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