Estou aprendendo a pintar com aquarela. As noções de desenho que trago da adolescência me ajudam um pouco, mas uma nova habilidade sempre precisa de dedicação. Dizem que você precisa de dez mil horas de aprendizado para realmente saber fazer alguma coisa. Não sei se é verdade, mas para mim, fez sentido. Leva um bom tempo de prática para conseguir cada pequeno progresso, então dez mil horas me parece bem razoável.

Ainda que eu esteja só começando, a aquarela tem me ensinado algumas que vão além da técnica. Vocês sabem, arte pode nos ensinar muito.

A primeira coisa que eu aprendi com a aquarela é que você não precisa pintar dentro das linhas o tempo todo. É bom se dar a liberdade de fugir do que é esperado, considerar formas diferentes de fazer as mesmas coisas de sempre. Fomos educados para sempre ficar dentro dos limites, usar as cores corretas. Mas que mal que há em ultrapassar as linhas? Quanto mais nos limitamos, menos nos permitimos ser criativos, menos experimentamos. E o mundo está todo aí, ao alcance das mãos.

Também aprendi que você não pode controlar tudo, e tudo bem que seja assim. Quando a gente lida com a fluidez da aquarela, tem que aceitar que algumas coisas não serão do jeito que você planejou. Às vezes, a aquarela é imprevisível e depende de diversos fatores que estão fora do seu alcance. Tem a ver com a qualidade do material, a quantidade de água e tinta que o pincel absorveu, a inclinação do papel, a umidade do ar, o vento entrando pela janela... E mesmo se você tentar controlar tudo isso, sempre vai ter algo que escapa. Aquarela é água, e é da natureza da água ser forte e imprevisível. Só lhe resta aceitar as coisas como são, deixar fluir e lidar com o que resultar daí.

Outra coisa é que você precisa de tempo para as cores assentarem. Aquarela geralmente se trabalha em camadas que se sobrepõem, você começa com as cores mais claras e passa, camada a camada, para as mais escuras, e para os detalhes. Além de ser um exercício de paciência, serve para lembrar que um passo precisa vir depois do outro. Não se pode atropelar as coisas, não se pode apressar os fatos.

A aquarela me ensinou ainda que as cores são mais bonitas e naturais quando misturadas. Isso me ajuda a entender que a vida habita mais nas nuances do que no absoluto. Uma pessoa nunca é só boa ou só ruim. Uma ação ou circunstância nunca é só boa ou só ruim. Isso não significa que a gente não tenha que assumir um posicionamento, mas é bom que a gente enxergue as coisas e pessoas como elas são – porque tanto a individualidade quanto os desentendimentos e conflitos que precisam ser resolvidos habitam nas áreas cinzentas que existem entre o preto e o branco das situações.

A última lição – por ora, acredito que muitas outras virão – é que você precisa de muita água. Isso pode soar como um conselho do tipo "usem filtro solar", mas, sério, você precisa de muita água. Você não tem noção do quanto é importante estar hidratado. Do quanto um banho pode te fazer bem quando você está estressado, irritado ou triste. Você precisa muito de água, por dentro e por fora. Então eu acho que mantê-la potável e abundante precisa ser uma preocupação diária de todos nós. A gente tem que se preocupar com reciclagem, com agrotóxico. A gente tem que se preocupar com a água. Afinal, com o corpo composto quase todo de água, nós somos apenas aquarelas com emoções complicadas.

Foi isso o que eu aprendi até agora.


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