Meu pai completou recentemente 75 anos. Herdei desse homem especial o gosto por contar histórias. Uma das minhas preferidas é a de sua alfabetização e sempre me emociono quando imagino o que aconteceu. Aos 7 anos, foi para a escola pela primeira vez, mas, no início da década de 50, um filho estudando era prejuízo à mão de obra familiar. Então, após apenas 3 meses,deixou livros e cadernos para ajudar meu avô na lavoura. Até aí, nada incomum para a época. Tempos depois, já adolescente, quando estava em uma quermesse, recebeu um correio-elegante de uma jovem, mas, por ainda ser analfabeto, não conseguia ler a mensagem. E foi motivo de piada entre alguns colegas. Um rapaz assistiu à cena, ficou comovido e se prontificou a ajudar. E, aos 14 anos, meu pai voltou a ter contato com as letras.

Ele nunca mais frequentou os bancos escolares, mas, depois de ser alfabetizado, ficou simplesmente apaixonado pela leitura. Lembro-me de quando eu era criança e o via devorando livros. Livros, revistas, jornais. Hoje, por causa da idade, a visão já não contribui muito para essa atividade. E o que mais me fascina é que, mesmo sem ter algum diploma na parede, consegue acompanhar qualquer discussão que lhe proponham. É informado, tem opinião e argumentos para sustentá-la. Lembrei-me dessa história porque uma colega sugeriu que eu discutisse aqui na coluna o analfabetismo funcional, que no Brasil é atribuído às pessoas que não completaram quatro anos de estudo formal e que, mesmo alfabetizadas, não conseguem extrair sentido das palavras. Não é o caso do meu pai. Ele extrai sentido. Ele dá sentido a elas.

Vez ou outra são divulgados índices que mostram pequenas melhoras no número de analfabetos funcionais, mas ainda não há motivos para comemoração. Minha amiga também é professora e se manifestou preocupada com a dificuldade da meninada em interpretação e produção textual, mesmo depois de concluir o ensino médio. E ela tem razão. Muitos estão passando bem mais de quatro anos na escola e ainda assim têm extrema dificuldade para interpretar e produzir textos, ou seja, não deixam de ser, nas devidas proporções, analfabetos funcionais.

Apenas o letramento não confere a ninguém a habilidade de ler e escrever com competência. É preciso ir além. Pessoas que não sabem usar o próprio idioma são presas fáceis. Alguns mal compreendem a propaganda da tevê; outros se encantam com o discurso eleitoreiro, aplaudindo quem faz promessas absurdas; e há os que se deixam seduzir por quem use meia dúzia de palavras bonitas, justamente porque não percebem que estão sendo lesados. Provas e exames que aferem o desempenho dos alunos brasileiros ratificam esse triste quadro. Eles estão indo à escola, estão passando de ano, mas muitos continuam sem o domínio do idioma. Por isso são dominados.

Sei que a história do meu pai não é um caso isolado. Outros certamente não puderam seguir a carreira discente e, ainda assim, conseguiram ter contato com a leitura e com a escrita fora do ambiente escolar. Mas me inquieta pensar que nossos meninos e meninas, mesmo frequentando os bancos escolares, podem ser motivo de piada como meu pai foi. A diferença é que eles terão o diploma nas mãos.


Participe e comente