Para quem não se lembra ou ainda não conhece o mito de Narciso, uma breve explicação: segundo a mitologia grega – ou pelo menos segundo uma das versões -, os pais de Narciso foram orientados pelos sábios a jamais deixar o menino olhar sua imagem no espelho, pois o choque ao ver sua beleza seria imprevisível. Um dia, durante uma caçada, o jovem parou para tomar água em um lago. Ao ver sua imagem refletida, viu um rosto de imensa beleza. Tão logo a contemplou já se apaixonou e então, perdido de amor, tentava abraçar o reflexo, mas, sempre que tocava o lago, ele se desfazia em suas mãos. Depois de muito tentar, percebeu que se tratava de um amor impossível e, já sem esperanças, decidiu matar-se ali mesmo, à beira do lago. E do sangue que regou a terra nasceram flores brancas, às quais se deu o nome do jovem: narciso. E até hoje, sempre que nos referimos a alguém que aprecia exageradamente a própria beleza, dizemos "quanto narcisismo!".

Não sou psicóloga e não tenho a mínima pretensão de fazer aqui uma análise dessa característica. Mas, como cronista, não me interessa apenas aquilo que salta aos olhos. A alma humana é fascinante e sempre me sinto desafiada a escrever sobre temas que tenham a ver com ela. E o amor próprio é algo que me inquieta. Aquele que preciso sentir por mim mesma e o que preciso estimular em meus filhos e alunos. Mas será que amor próprio é narcisismo? Qual a diferença entre olhar para o espelho e gostar do que se vê e passar a vida se contemplando?

Há uma música que representa bem essa discussão: "Eu me amo", da banda Ultraje a Rigor. Na letra, o desabafo de alguém que finalmente se encontrou. "Há quanto tempo eu vinha me procurando / Quanto tempo faz, já nem lembro mais (...) Daqui pra frente nova vida eu terei

Sempre a meu lado bem feliz eu serei (...) Eu me amo, eu me amo / Não posso mais viver sem mim (...)". O tema também é recorrente na minha fanpage, espaço virtual em que publico poemas. Escrevi dia desses que remédio cura as feridas do corpo, mas as do coração só são curadas com amor próprio.

Se existe uma linha tênue entre ele e o narcisismo? Sim. Mas, com equilíbrio, gostar de si mesmo é uma boa estratégia para ser mais feliz e para ter relações afetivas mais saudáveis. E esse sentimento não se refere apenas a questões estéticas. É claro que estar de bem com o espelho provoca uma autoestima em dia e esse processo de aceitação reflete em tudo na vida. Mas, além de estar de bem com o nosso corpo, precisamos estar em sintonia com nossas emoções, com nossos desejos, com nossos planos. E, para isso, precisamos nos conhecer e, mesmo em meio às nossas imperfeições, algo peculiar à nossa condição humana, precisamos nos amar. Não um amor cego, que nos impeça de perceber que podemos melhorar. Mas um sentimento que, assim como diz a música, faça com que nos encontremos. E não queiramos mais ficar longe de nós. Até porque podemos fugir de qualquer pessoa. Menos de nós mesmos.

Mas, assim como a falta de amor próprio, o excesso dele causa sequelas emocionais preocupantes. Narciso morreu porque, ao se apaixonar pelo seu reflexo, esqueceu-se de viver. Esqueceu os outros. Não corremos esse risco. Pelo menos não conheço fora da mitologia um exemplo de alguém que tenha morrido de tanto de se olhar no espelho. Acho que até a madrasta da Branca de Neve, mulher que adorava bater papo com um, tinha mais o que fazer na vida. Mas a história grega é simbólica porque faz um alerta: o exagero pode nos roubar do convívio familiar, profissional e social.

O amor próprio equilibrado não é egoísta. Nem egocêntrico. Há uma valorização de si mesmo, uma estima por si mesmo, mas o outro também conta. O amigo, o namorado, o colega de trabalho, o pai, o vizinho etc. Quem se ama vive em paz consigo, mas não se esquece de que as relações, para ser saudáveis e prazerosas, precisam de duas ou mais pessoas.

Narcisistas ignoram essa realidade. Não morrem em frente ao espelho, mas vivem preocupados apenas com sua imagem. Imagem do corpo ou da alma. E pior: veem a perfeição estampada no reflexo. E, ao não enxergarem seus defeitos, recusam-se a evoluir. Postar uma foto bacana nas redes sociais, por exemplo, e sentir prazer com os elogios não é marca de narcisismo (trocar a do perfil três vezes por semana talvez seja). Hipocrisia dizer que não nos afaga o ego mostrar que estamos bem.

O problema é pensar de mais em si mesmo e de menos nos outros. O problema é passar a vida se contemplando no lago.

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