• Blog de Maria Bethânia poderá captar R$1,3 milhão para vídeos de poesia

  • Fábio Massalli
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Em sua consagrada carreira, Maria Bethania já se viu envolvida em uma polêmica do tipo: há três anos, a cantora baiana esteve no epicentro do furacão cultural por ter conseguido um apoio luxuoso da parte do Ministério da Cultura (MinC), via Lei Rouanet, de R$ 1,8 milhão para custear uma turnê pelo País.

Agora, a irmã de Caetano volta ser (má) notícia. Tudo começou na última quarta-feira, quando a coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo divulgou que a cantora teve um projeto aprovado no MinC para a captação de recursos no valor de R$1,3 milhão para a produção de 365 curtas-metragens de um minuto de duração, a ser dirigidos por Andrucha Waddington. ("Eu, tu, Eles" e "Lope").

Nos curtas, Bethânia interpretaria poemas de autores importantes da língua portuguesa. E o material seria divulgado através de um blog. O nome do blog - e do projeto, proposto pela produtora Conspiração Filmes, da qual Andrucha é sócio - é "O Mundo Precisa de Poesia".

 

Maria Bethânia: projeto da cantora terá 365 vídeos de

poesia exibidos em um ano; para produtores culturais

paranaenses, polêmica é infundada

O mundo pode precisar de poesia, mas o que Bethania conseguiu foi muita polêmica. Na quarta-feira, incentivado por mensagens agressivas postadas no Twitter pelo cantor Lobão (desafeto declarado de Bethania e de Caetano), criticando o valor destinado ao projeto, o assunto chegou aos Trend Topics (temas mais comentados) do Twitter. No domingo, o assunto voltou ao Trend Topics após a divulgação de que Bethânia receberia R$ 600 mil no projeto por um ano de trabalho.

 

Para o cineasta paranaense Fernando Severo, que acaba de lançar o longa "Corpos Celestes", o projeto de Bethânia é louvável e toda a polêmica não faz sentido. "O artista tem um valor de mercado e ela tem um cachê altíssimo. A Bethânia está se dispondo a vir a público para divulgar poesia, que é o patinho feio da literatura. É algo que repercutirá muito em toda mídia", diz. "Também se formos olhar apenas o orçamento, não é o pior que eu já vi aprovado pelo MinC."

Severo observa que a poesia terá uma grande destaque com o blog de Bethânia. "A literatura está muito restrita hoje A Bethânia é um diferencial que vai atrair muita gente. Ela não merecia a maneira como estão tratando esse assunto na internet. A Bethânia já vinha fazendo esse trabalho de dizer poemas em seus shows e agora quer disponibilizar para todos através da internet", diz.

Para o ator e produtor cultural maringaense Ben-hur Prado, que tem o projeto da peça "O Mercador de Veneza" aprovado na Lei Rouanet, a polêmica em torno do blog da Bethânia nem deveria existir.

"É uma situação legítima. O projeto foi aprovado, o valor é legítimo e se você dividir o total por 365 vídeos, verá que o valor de produção de cada um é muito baixo se incluir também o cachê da Bethânia. Além disso, o dinheiro do Ministério da Cultura é para fomentar a cultura", diz.

Prado ressaltou que o dinheiro ainda não está na conta da Conspiração ou de Bethânia, ao contrário do que dizem muitos comentários e até algumas matérias na mídia. "Parece que o que existe é uma rebeldia por parte de quem desconhece o assunto", diz.

A polêmica, entretanto, na opinião de Prado, pode ajudar a desmistificar as leis de incentivo federais, como a Rouanet e a do Audiovisual. "O tema passa a ser discutido e os empresários podem saber o que é um bom projeto. Tanto aqui em Maringá quanto na maioria das cidades brasileiras, os empresários e contadores não investem porque desconhecem a lei e não têm afinidade com seus procedimentos. A exceção são as grandes empresas brasileiras, como Eletrobrás e Petrobrás. Mas essa polêmica é boa para chamar a atenção sobre esse assunto", diz.

O escritor e jornalista Rogério Recco,que já publicou vários livros através da Lei Rouanet, diz que achou muito estranho toda a polêmica, pois não se está avaliando a qualidade do projeto.

"Creio que abriu-se uma discussão desnecessária, o que influenciou a imprensa. Se o Ministério da Cultura aprovou o projeto e o habilitou para captação de recursos, vejo que essa discussão é fora de contexto. Se o proponente vai conseguir captar, aí é outra conversa", diz.

Existem duas modalidades federais de leis de incentivo à cultura na categoria de renúncia fiscal: a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual. O projeto "O Mundo Precisa de Poesia" foi aprovado para captação de recursos na segunda.

Após a captação, o proponente tem o prazo de um ano para encontrar empresários ou pessoas físicas que estejam dispostas a investir em seu projeto no valor total aprovado em lei.

As empresas podem investir, em renúncia fiscal, até 4% do seu Imposto de Renda, enquanto a pessoa física tem um limite de 6%. Podem participar apenas empresas tributadas com base no lucro real.

 


Veja Maria Bethania interpretando "Poema do Menino Jesus", de Fernando Pessoa

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