• Angelopoulos e a reconstrução da memória

  • Paulo Campagnolo
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A morte de Theo Angelopoulos, no último dia 24 de janeiro, deixou vago no cinema um posto cada vez mais difícil de ser preenchido: o de cineasta de profundos princípios humanistas, capaz de verdadeiros épicos históricos e, ainda, de dramas individuais existencialistas. Sem nunca, no entanto, perder de vista o seu povo, o seu país, e um entorno contemporâneo que ele esmerava em mostrar em toda a secura e também, belas doses de poesia.

Talvez tenha sido o diretor de cinema europeu que mais se aproxima do humanismo tão latente em Tarkovsky e Kieslowski.Algumas palavras, como exílio, fronteira e transitoriedade definem bem o seu cinema pontuado por longas tomadas, um senso profundo do tempo e, nos últimos trabalhos, um especial apreço pelas reentrâncias da memória.

Divulgação

"A Eternidade e Um Dia", de Teo Angelopoulos: reflexão com densidade

O Projeto Um Outro Olhar presta hoje uma homenagem a este grego que, apesar de um número não muito vasto de filmes (uma dúzia e meia), marcou o cinema do século 20 com obras de grande força, combinando uma rara expressão intelectual com uma delicadeza que parece não mais se comunicar com estes tempos de tanta brutalidade.

Premiado mundialmente, foi só em 1998, entretanto, que o Festival de Cannes lhe deu o prêmio máximo A Palma de Ouro, para o belo "A Eternidade e Um Dia", cartaz do Projeto neste sábado. Trata-se de um dos belos exemplos de como Angelopoulos sabia combinar reflexões intensas sobre o tempo e a memória com uma atitude formal capaz de dar maior densidade a estas reflexões.

Bruno Ganz (ator suíço de "Asas Do Desejo", "Pão e Tulipas" e "A Queda") vive o poeta Alexandre, acometido de uma doença terminal e que tem apenas mais um dia pela frente. Um dia para revisitar seu passado (as lembranças da esposa já morta, da mãe, da própria infância) e se defrontar com o futuro (um garoto albanês).

ENTRADA FRANCA


“A Eternidade e Um Dia”
Grécia/França/Itália/1998
– 136 min.
Direção: Theo Angelopoulos
Elenco: Bruno Ganz, Isabelle
Renaud e Fabrizio Bentivoglio
Quando: hoje
Onde: Auditório Hélio Moreira
Horário: 20 horas
Classificação: 16 anos
Entrada franca

Entre a tentativa de se redimir do passado e a difícil tarefa de abdicar de um futuro, Angeloupos constrói uma obra onde o fluxo da imaginação e do real são fronteiras invisíveis que resultam em sequências, por vezes, assombrosas no seu ritmo e consistência poética – como por exemplo, quando Alexandre e o garoto pegam um ônibus para dar uma volta antes da despedida final.

Sempre afinado com seu tempo, Angelopoulos ainda aproveita para reiterar um questionamento sempre presente (com variações e matizes) no seu cinema: o papel do artista no mundo. Seu desaparecimento agora torna ainda mais relevante essa reflexão.

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