Dar início a um empreendimento não é simples, mas muita coisa pode ser feita para que o negócio prospere e sobreviva, especialmente na fase inicial, o período mais crítico.
Um estudo recente da Fundação Dom Cabral revelou que 25% das startups encerram sua operação antes do primeiro ano de vida. Esse trabalho direcionado para analisar o empreendedor e as condições do ambiente e características do negócio, pesquisou fundadores de 221 startups, das quais 91 foram descontinuadas e 130 permaneceram no mercado. O levantamento concluiu que diferentes fatores explicam a mortalidade das empresas, entre os quais se destacam o número excessivo de sócios, o volume do capital investido e a localização do empreendimento, mas há outras razões a serem analisadas.

No entanto, a boa notícia é que há novas abordagens empenhadas em ajudar a estruturar o negócio como, por exemplo, a ‘Gestão Visual de Projeto’.
De acordo com o Lean Institute Brasil (2012) a Gestão Visual é um sistema de planejamento, controle e melhoria contínua que integra ferramentas visuais simples que possibilitam o entendimento, e permitem com uma rápida visualização compreender a situação atual.

O professor de Design da Universidade Federal de Santa Catarina e autor do livro ‘Gestão Visual de Projetos: utilizando a Informação para inovar’, Júlio Monteiro Teixeira, há anos pesquisa e trabalha com o tema. Durante a sua tese de doutorado em Engenharia de Produção pela UFSC, que foi desenvolvida em parceria com a Universidade de Wuppertal na Alemanha, ele elencou e desenvolveu princípios e ferramentas, que culminaram em um modelo inovador de Gestão Visual de Projetos, que após algumas pesquisas de campo em empresas brasileiras e europeias, foi desdobrado em novos modelos e ferramentas, que foram aplicados nos mais variados contextos.

Segundo Teixeira, a Gestão Visual sugere que protótipos e testes sejam realizados o quanto antes para que se descubra os erros também o quanto antes. Neste sentido, criar relatos visuais desde a fase informacional do projeto ajuda a testar se as informações de projeto possuem nexo visualmente, pois ao agruparmos informações, nosso cérebro tende a procurar sentido. Funciona como uma espécie de experimentação conceitual das informações. Além disso, nossa tendência é responder visualmente quando somos estimulados de forma visual. Para isso, ele sugere o uso de ferramentas que permitam visualizar característica do produto e negócio em um único plano.

Aplicando a Gestão Visual de Projeto em startups e novas empresas

Júlio encontrou na Gestão Visual caminhos para fortalecer as novas empresas num mercado cada vez mais competitivo e dinâmico.

Teixeira e mais dois consultores foram convidados pelo SEBRAE-SC, por meio do programa nacional Sebraetec, junto ao Instituto de Design, Inovação e Tecnologia, para prestarem consultorias em inovação digital. Ao total foram 27 empresas atendidas, 18 delas com foco em Inbound e Outbound Marketing e nove delas com foco em User Experience.

Neste processo, Júlio combinou diferentes ferramentas de desenvolvimento e visualização de processos, entre elas cabe destacar o Fluxograma para Interfaces Digitais, que foi bastante utilizado nas consultorias de User Experience. Uma ferramenta visual para análise dos usuários, que visa transformar as informações coletadas em requisitos de interface. Para isso, reúne informações de projeto por meio de um fluxo lógico e visual e reduz a complexidade durante a tomada de decisão. O fluxograma, foi peça chave para conectar etapas e entender melhor a importância e relação de cada informação durante tomada de decisão.

Entre as empresas que tinham interesse de melhorar a experiência do usuário, percebeu-se que a utilização do fluxograma para interfaces digitais possibilitou uma visualização facilitada de cada uma das etapas.

Em 2016, ele e mais um professor foram mentores de 90 startups que participaram do Programa Sinapse da Inovação promovido pela Fundação CERTI (Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras) em Florianópolis, Santa Catarina. Essas mentorias tinham como objetivo de auxiliar os empreendedores no processo de desenvolvimento de seus produtos. Para tal ocasião, visando facilitar o processo de mentoria, resolveu-se utilizar os princípios de Gestão Visual de Projetos na criação de um painel que permitisse a visualização do produto e do negócio da empresa em um único plano.

O painel visual pode ser dividido em 3 partes. O professor Teixeira explica as três partes dessa ferramenta visual:
1. Intuição – nesta parte deve-se descrever o status atual da proposta de valor, mesmo que ainda seja apenas um insight ou lampejo criativo.
2. Observação – nesta parte deve-se lançar um olhar para fora do negócio, relacionando concorrentes e clientes, consumidores e usuários sob diferentes aspectos.
3. Interação – esta parte refere-se ao momento no qual se interage com o mercado. Esta parte tem o intuito de permitir a visualização condensada e sintetizada do que é preciso fazer para lançar a solução no mercado.

A mentoria possibilitou uma visão mais ampla do negócio e do desenvolvimento do produto, além de contribuir para encontrar soluções e perceber oportunidades. O projeto apresentou excelentes resultados.

Os Painéis Visuais e os Fluxogramas criados e utilizados por Teixeira nas consultorias mencionadas acima são apenas algumas das várias ferramentas que podem ser utilizadas na Gestão Visual de Projetos, pois a metodologia dispõe de diferentes técnicas e recursos. Existe uma gama de possibilidades, tanto que o professor elencou as diversas aplicações desta metodologia no livro ‘Gestão Visual de Projetos: utilizando a Informação para inovar’.

“A aplicação da Gestão Visual de Projetos é muito ampla, ela pode contribuir tanto para o desempenho das novas empresas como das empresas já estabelecidas. Traz benefícios para gestores e também para os membros da equipe, pois permite obter uma visão global e simplificada do processo, elucida dúvidas, ajuda na tomada de decisão. Além disso, ajuda o profissional a entender o seu papel e dos colegas de equipe, incentivando processos colaborativos. É uma forma de tonar o projeto mais prático, efetivo, democrático e participativo”, enfatiza Júlio Teixeira.


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