A chegada de João foi a realização do sonho de maternidade da professora Juliana Fernandes Bonfante, 36 anos. Profissional da Educação há 13 anos, ela diz que não esperava a rescisão de contrato um mês após o retorno da licença-maternidade. Outra funcionária da escola, segundo ela, também foi dispensada na mesma situação. "Eu planejei a carreira antes da maternidade, estudei e me dediquei à ela. A dispensa em razão da maternidade, porque até então estava tudo bem, foi um choque", desabafa.

Assim que deixou a escola onde trabalhava, mais uma surpresa. Em busca de outro emprego, ela se deparou com um anúncio que dizia "vaga com prioridade para professores sem filhos". Para ela, foi como levar uma "segunda rasteira" porque a postura de uma escola jamais deveria ser excludente. O ambiente deveria fortalecer laços afetivos, promover a humanidade e uma visão social integradora.

"Eu tenho repensado, inclusive o direcionamento da minha carreira porque não quero que o meu filho cresça num espaço-empresa que dispensa os valores humanos em favor de uma postura fechada, empresarial", diz.

Portas fechadas

Pela razão inversa,uma analista de licitações há onze anos com formação em Direito e especialização na área também teve negado o direito a concorrer a uma vaga. Sem querer se identificar, ela afirma que na possibilidade de ainda ter filhos, tornou-se uma candidata menos interessante.

A oportunidade de trabalho era em uma empresa de concursos públicos, os recrutadores recomendaram o currículo dela, porém entenderam que seria difícil para ela, mulher, viajar para outras cidades. "Várias vezes, durante a entrevista de trabalho, o recrutador ou mesmo o dono da empresa perguntou se eu já tinha filhos e se eu ainda queria ter filhos", afirma.

Assim como Juliana, a especialista em licitações enfrentou outra situação de preconceito na etapa de recrutamento: a idade . Mais uma vez, a profissional tinha o perfil adequado para assumir a vaga, mas a empresa sequer fez a entrevista porque esperava alguém "mais jovem".

O preconceito, embora velado, acontece em diferentes áreas. Um professor homem ainda tem dificuldade em lecionar para crianças, mesmo que sua formação seja específica. Há pessoas consideradas muito jovens, outras ainda são discriminadas pela cor da pele ou status social.

"Desanima muito. Sinto que há um preconceito velado nos ambientes corporativos e fico me perguntando para quê eu investi tanto em minha carreira se a questão do currículo, do estudo e da experiência parece muitas vezes contar menos do que o fato de eu ser mulher, de tentar engravidar e de estar com a minha idade", diz Juliana.

Enfrentar esse tipo de situação em meio a uma crise econômica equivale a uma tortura psicológica contra o profissional. A especialista em licitações que não quis se identificar diz que a ameaça à empregabilidade paira sobre ela como um fantasma. "Atualmente, estou empregada, mas pareço estar em uma corda bamba. Até quando? Para a mulher, os desafios dentro de uma empresa são sempre maiores. E, em último caso, preciso começar a pensar em empreender para não precisar mais depender de entrevistas tão suspeitas."

Equivocados
Toda empresa moderna e de gestão eficiente é inclusiva e não apenas por força de lei. A administração conectada com a modernidade tem uma postura amadurecida. Desse modo, a exclusão por fatores relativos não existe.

O master coach José Rodolfo Grou tem longa experiência na área de Recursos Humanos e explica uma gestão eficiente entende que não têm direito sobre a vida pessoal do funcionário. A seleção é baseada na capacidade de colaborar, na experiência e potencial a ser desenvolvido.

Outros fatores, sobretudo aqueles calcados em posturas preconceituosas deixam de fazer sentido. A competência sim, deve ser o objetivo da seleção. "Empresas que desconsideram esse fator precisam de redirecionamento porque cedo ou tarde terão seus indicadores e números afetados por essa postura", afirma.

De acordo com ele, a atitude discriminatória compromete toda a cadeia de valores da organização, inclusive, a imagem de mercado. "Ninguém mais vai querer se associar a uma gestão com essa postura, nem cliente, nem empresa."

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