A decisão judicial que autorizou a troca de nome saiu em novembro passado e, agora, Nuno Augusto Farias, homem transgênero de 25 anos, está prestes a pegar a nova Carteira do Trabalho, a com que ele se sente realmente identificado. Atualmente, trabalha como atendente em uma barbearia e planeja, no futuro, abrir seu próprio negócio. Antes disso, já havia sido admitido em um frigorífico, com carteira assinada, depois da transição.

O ano de 2017 foi importante para Nuno. Além da nova certidão de nascimento, conseguiu fazer a cirurgia de retirada das mamas. Com corpo e nome atualizados, ele se sente pronto para evoluir na formação e vida profissional. "Larguei os estudos com 16 anos, eu estava me descobrindo. (...) No início eu era muito perdido, não sabia o que eu queria, o que eu era. Quando você tem o apoio da família, os estudos; a escola te apoia, incentiva, para você não sofrer preconceito, bullying, esse com certeza, é o caminho."

O rapaz está finalizando o Ensino Médio e projeta sua vida profissional. Como homem transgênero, em primeiro emprego, no frigorífico, ele podia usar o nome social no crachá. "Lá sempre me respeitaram com nome social, eu usava banheiro e vestiários masculinos, não tive problema com qualquer outro funcionário", lembra.

Apesar da experiência positiva no frigorífico, avalia que o mercado ainda é restrito para o público trans, especialmente quando há contato com clientes, como é o caso do setor de vendas. A questão da documentação, se ainda não leva o nome social, também acaba sendo um empecilho.

Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, 90% desse público acabam recorrendo à prostituição como fonte de renda por causa da dificuldade de ingressar no mercado formal. O preconceito faz com que, 13 anos, seja a idade média em que essas pessoas deixam a casa dos pais, expulsas. Nesse cenário, somente 0,02% estão no ensino superior; 72% não possuem ensino médio e 56%, o ensino fundamental, de acordo com o projeto Além do Arco-Íris/AfroReggae.

Coordenador do Grupo de Pesquisa em Sexualidade, Saúde e Política (Deverso) e professor do departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá, Murilo Moscheta acredita que o campo da vida profissional para o público transgênero precisa ser pensado sob dois vieses. Com o País com dificuldade de abrigar a mão de obra existente, a questão do preconceito amplia a dificuldade de o trans ingressar no mercado formal. "Passa pelo temor de um empresário contratar uma pessoa trans por causa do que o cliente dele vai pensar", colocou.

O outro viés é a frustração. "O trans entra na escola e há um conjunto de dificuldade de conseguir terminar os estudos. Quando vai para a faculdade, é a mesma coisa. A possibilidade de essas pessoas se construirem dentro do ramo profissional que sonham é bastante limitada. Conseguir se qualificar dentro disso, é um desafio imenso, e conseguir uma vaga no mercado de trabalho é quase impossível."

Para além do cenário de conflitos, o professor de Psicologia acredita que a resiliência é uma importante demonstração. "A escola ou o campo empresarial não estão abertos ou dispostos a, de fato, oferecer um espaço para que essas pessoas se desenvolvam. Contudo, algumas delas, maravilhosamente, superam as dificuldades e conseguem."

Para Nuno Augusto, que vive isso "na pele", o mercado de trabalho ainda precisa crescer, mas já progride. "As pessoas estão abrindo a mente", avalia.


CONQUISTA. Depois da troca de nome, Nuno Augusto Farias conseguiu espaço no mercado. — JC FRAGOSO


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