Enquanto políticos, chefes de cozinha, intelectuais, jornalistas e historiadores discutem se o cachorrão é ou não um prato típico de Maringá, o lanche vai ganhando o País. Atualmente, não é só nas calçadas maringaenses que o público pode matar a fome com um dogão prensado e recheado com itens diversos e aleatórios, que vão da calabresa ao frango, passando por milho e pepperoni, bacon e alcatra, entre vários outros.

A 26,7 km da Esplanada dos Ministérios, os moradores de Brasília se refestelam com um cachorrão à maringaense. Em São Paulo, a 4 km da Avenida Paulista, paulistanos se fartam com dogões batizados de Praça do Peladão, Expoingá e Estádio Willie Davids. A duas quadras do mar, turistas e catarinenses há cinco anos se regalam com prensados maringaenses. Em Astorga, Mandaguaçu, Floresta e Iguaraçu também é possível encontrar, pelas calçadas, lanches que se gabam de reproduzir o famoso cachorrão de Maringá.

A maioria desses lugares é administrada por maringaenses que encomendam pães especiais, produzidos em duas fábricas daqui e uma de Sarandi. Esses três fornecedores, segundo empresários do ramo, chegam a servir uma média de cinco mil pães por dia cada fábrica, abastecendo os carrinhos de hot dog dentro e fora de Maringá.

Em uma escalada lenta e bem-sucedida, o dogão maringaense vai conquistando espaço no cenário nacional - para terror de uns e delírio de outros -, gerando lucro a empresários que se esforçam em elaborar receitas próprias, às vezes ultrassecretas, para pães e tipos de maionese verde.

Fora, Temer

Se o presidente Michel Temer quiser jantar fora e se fartar com um dogão prensado, com direito a duas salsichas e maionese da casa, basta sair do Palácio do Jaburu e dirigir por trinta minutos até a Avenida Boulevard Norte com a Rua 7. Lá, ele será atendido por Victor Feitosa, um simpático e atencioso maringaense que, após trocar há nove anos a terra vermelha por Brasília, resolveu abrir, há menos de um mês, um food truck chamado "Brother's Lanche", servindo seis opções de prensados.

Formado em Administração pela Faculdade Maringá, Victor, de 30 anos, chegou a trabalhar no Banco Itaú e, junto à esposa, administrou uma loja de cortinas. Com saudade dos cachorrões do Toninho, do Fininho e do Nacional Lanches, concluiu que não havia nada comparado aos sanduíches maringaenses. Em Brasília, os cachorrões eram preparados de uma forma minimalista, apenas com molho de alho, queijo, uma única salsicha, maionese branca e batata palha. "Aqui, eles nunca colocam duas salsichas, o lanche não é prensado e não existe maionese verde. É o típico cachorrão nova-iorquino, não é o tipo cachorrão maringaense", compara.

Ao assumir uma conveniência no bairro Águas Claras, numa esquina movimentada, o maringaense imaginou que um cachorrão poderia fazer sucesso no meio da calçada. Disposto a fazer o lanche exatamente como é servido em Maringá, Victor pesquisou, por aqui, o preço de uma dessas casinhas de cachorrão à base de ferro e tomou um susto ao descobrir que não desembolsaria menos de R$ 9 mil. Preferiu adquirir um food truck, mais gourmetizado e prático do que as casinhas de metal, que não podem se locomover, desembolsando praticamente o mesmo valor. "Eu queria exatamente o legítimo maringaense, mas não teve jeito", lamenta.

Em busca do pão

O maior desafio de Victor foi encontrar o pão perfeito. Ele percorreu quatro panificadoras de Brasília, mostrando no celular a foto do cachorrão maringaense e pedindo que fizessem um pão parecido, que fosse leve e pudesse ser prensado na chapa: um pão grande, macio e elástico. O resultado foi frustrante. "Ninguém faz o pão como a gente. Os pães ficavam secos e os lanches desmontavam", lembra.

Com o proprietário do Fininho Lanches, na Avenida Colombo, o maringaense conseguiu o nome de um distribuidor de pães da região, uma empresa que há cinco anos existe em Sarandi. Foi o que o salvou. Em menos de um mês, mais de seis centenas de pães já foram enviadas de Sarandi para Brasília, por meio de ônibus que partem às 14h e chegam às 7h do dia seguinte, sustentando dogões que oscilam de R$ 12 (pão, salsicha, milho, tomate, maioneses, ervilha, mussarela e batata palha) a R$ 18 (tudo o que vai no simples mais 120 gramas de alcatra).

Abrindo de terça a domingo, das 17h à 0h - o horário de maior movimento é às 20h, diariamente -, Victor sabe, de cara, se o cliente é maringaense ou não. "60% dos brasilienses não conseguem terminar o lanche, dizem que é grande demais. Mesmo assim, o povo vira cliente e sempre volta. Já os maringaenses sempre terminam o dogão, estão acostumados com esse tamanho. 70% dos meus clientes são maringaenses que vêm duas, três vezes por semana. São pessoas que sempre tiveram vontade de comer o cachorrão maringaense, mas nunca encontraram nada parecido", comenta. O próximo passo, quando sobrar uma verba, é mudar a fachada do food truck. "Quero colocar bem grande: Cachorrão de Maringá. Da mesma forma como já está no meu perfil do Instagram", adianta.

Dogão nobre

A poucos metros do Parque Ibirapuera, em Moema, bairro nobre de São Paulo, também é possível provar o dogão maringaense. Maria Inês, 55, prepara as três dezenas de opções de lanches oferecidos no Dogão de Maringá: Hot Dog's Prensados. Quem abriu o cachorrão foi o genro de Maria Inês, em 2011 – à época chamado de Dogão do Genésio: O Prensadão de Maringá – PR. Segundo Maria, o genro decidiu abrir o lanche juntamente a um estacionamento que adquiriu em Moema porque notou a ausência de lanches do tipo. "Aqui não tem nada parecido com os lanches maringaenses", comenta Maria.

Há dois meses, o genro e a filha de Maria desistiram de São Paulo e decidiram voltar para cá, trabalhando com venda pela internet de bolos de pote. Maria, que até então era dona de casa, e seu marido, que teve uma borracharia em Maringá, resolveram comprar o estacionamento e o lanche, mantendo a proposta gastronômica.

Todos os dogões do cardápio remetem a Maringá - não só no formato e no sabor. Os nomes também estão relacionados a lugares, clubes, eventos e até programas televisivos da cidade. Há opções como o lanche Expoingá (com bacon crocante), Pinga Fogo (pepperoni), Chico Neto (calabresa, bacon crocante, ervilha), Parque do Ingá (calabresa acebolada),Praça do Peladão (queijo prato, presunto, orégano), Centro Português (ovo frio, queijo e orégano) e Estádio Willie Davids (frango). "A gente tinha até o lanche Car Wash, mas tiramos do cardápio quando o bar faliu", conta.

Nas recomendações do Google, o local tem 12 avaliações positivas e acumula elogios. Um internauta notou o a personalidade cosmopolita do dogão maringaense. "É bem paulista, mesmo chamando Maringá", observou Evelyn Prestes, comentando o "sabor incrível" do lanche devorado. Outros internautas elogiaram a viagem gastronômica que encararam, sem sair de São Paulo: "Me senti em Maringá", relatou Dr. Britto. Parabenizando o "sanduíche bem denso", Caio Iglesias afirmou que o dogão maringaense tem características próprias e "não é um simples hot dog".

Segundo Maria, 25% da clientela é formada por maringaenses; o resto, por paulistanos que trabalham nas grandes empresas do bairro ou que acompanham familiares no Hospital do Servidor Público Estadual, localizado próximo ao quiosque do cachorrão.

Sigilo total

Quem prova o lanche do Dogão de Maringá pela primeira vez não esconde a surpresa, e tenta arrancar todos os detalhes possíveis, perguntando como é feito o corte do bacon, como é preparada a maionese verde à base de ervas e, principalmente, qual o nome do fornecedor daquele tipo de pão. Maria Inês nunca abre o jogo. Responde que os pães são encomendados de uma empresa de Maringá e esquiva-se de das outras questões, justificando que os dados são extremamente sigilosos. Temendo a possível concorrência em São Paulo, de outros dogões do tipo maringaense, ela recusa detalhes, inclusive, à reportagem. "A gente demorou muito para conseguir isso. Rodamos São Paulo inteira para buscar um pão de cachorrão e nunca deu certo: o lanche quebrava. O pão que a gente traz de Maringá é especial para montar o dog. Não posso falar mais", avisa.

Segredo compreensível

Fornecendo pães há cinco anos para mais de uma centena de pontos maringaenses, a Lugo Alimentos, de Sarandi, dá conta de abastecer um terço de todos os carrinhos de cachorro-quente daqui. Diariamente, a empresa vende cinco mil pães de cachorrão, contando as remessas para clientes de outras cidades, como Astorga, Mandaguaçu, Floresta, Iguaraçu e Brasília.

"Maringá tem uns 300 carrinhos de cachorro-quente. Nós e mais duas empresas maringaenses damos conta de atender todos eles", diz Victor Ota, um dos sócios-proprietários da empresa alimentícia.

Antes de assumir a empresa, Victor e seu sócio trabalharam durante quatro anos com a produção de farinha de trigo. Após um levantamento na prefeitura, que indicou ter mais de 300 pontos de cachorro-quente na cidade, a dupla resolveu mudar o rumo do negócio, aplicando os conhecimentos sobre trigo em variedades de pães.

Os pães de cachorrão, que levam quase um dia para chegar ao ponto certo - o horário pode ir das cinco da manhã até a meia-noite -, correspondem a 70% da produção da empresa, que conta com dez funcionários.

"Não posso revelar como fazemos nosso pão, senão a concorrência vai copiar tudo", desconversa Ota. Para chegar ao pão ideal, que hoje pode ser saboreado até pelo presidente Michel Temer, a empresa investiu um mês em testes e, aos poucos, foi aprimorando a receita.

"No pão, tudo é muito melindroso. A compra da matéria-prima, o preparo da massa, o tempo de fermentação, o assamento dos pães, o processo de embalagem e até a entrega, que pode ser feita pessoalmente ou por ônibus", diz, mantendo a sete chaves a base que sustenta o polêmico dogão que, de acordo com algumas pessoas, é, sem dúvida, o melhor representante da gastronomia maringaense.

 

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Cachorrão prensado: típico ou não, lanche faz sucesso fora de Maringá

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