Como era esperado pelos comerciantes maringaenses, as vendas de brinquedos, aparelhos eletrônicos, roupas e calçados para o Dia das Crianças foram as melhores dos últimos quatro anos. Pelos cálculos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), até a noite de ontem foram movimentados em torno de R$ 7,4 bilhões em vendas no País; aumento de 3,4% ante o ano passado.

Para o comércio varejista, o Dia das Crianças figura entre as seis datas mais importantes para as vendas, mas para as lojas especializadas em artigos infantis a data só pode ser comparada com o Natal.

Neste ano, uma sondagem encomendada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná (Fecomércio) preocupou os empresários, pois indicava que 57,6% dos consumidores paranaenses presenteariam uma ou mais crianças, contra 62% do ano passado.

"Realmente, neste ano não tivemos aquele clima de muvuca do ano passado", diz o vendedor Robson Germano. "Mas, o grande movimento do ano passado, na véspera do Dia das Crianças, deve ter sido porque os pais deixaram para comprar na última hora, ao passo que neste ano estamos vendendo para o Dia das Crianças desde o final de setembro."

O garoto Arthur Biombo, de 4 anos, que foi a uma loja acompanhado dos pais, Suelen e Anderson, e não teve dificuldades para encontrar sua pista Hot Wheels, que ele conhece dos filmes. Luiz Felipe, 6, fez o pai Luiz Antonio Ganzer acompanhá-lo por várias lojas. Ele queria uma bicicleta

A boneca Lol Surpresa, que ganhou ampla divulgação pela internet, foi a preferida das meninas este ano. Ela vem dentro de uma bola que, quando aberta, a criança encontra outra bola, depois mais outra e só na sétima encontrará a boneca, porém a cada camada ela recebe uma lição sobre a personalidade da Lol.

"Vendemos todo o estoque, de 72 unidades, em apenas 24 horas, depois chegaram mais 72 e se ainda tivéssemos hoje ela continuaria vendendo", conta Germano.

A boneca Baby Alive, com diferentes modelos, foi a vice-campeã em vendas. Para os meninos os líderes da preferência foram os lançadores Nerf, que os vendedores tiveram o cuidado para não chamar de arma, e os personagens da Patrulha Canina, que vão de R$ 29 a R$ 600.

Tecnologia e as novas formas de brincar

Para as crianças, brincar não é simples lazer, mas um momento de aprender a lidar com o mundo ao seu redor, ainda que a imaginação corra solta. Ali, ela desenvolve habilidades psíquicas, motoras e de socialização. Com uma função tão importante, o brincar está sofrendo mudanças profundas por causa da tecnologia.

Nostálgicos, Divino Fernandes, 43 anos, pai de cinco filhos, e Amanda Marins, 35, mãe de três filhas, lembram dos bons tempos do esconde-esconde e bets. Criados nos jogos de rua, hoje veem os filhos apaixonados por celulares e computadores e se preocupam com a intensidade dessa fascinação.

Psicóloga e doutora em Educação, Lucineia Lazaretti acredita que a preocupação deve realmente existir, com uma atenção ao tempo, à frequência e ao conteúdo dos eletrônicos. Segundo ela, a transformação do cotidiano começou com a chegada da TV, que ainda ocupa uma grande parte da rotina das crianças e pode incentivar o consumo, devido ao material publicitário que veicula.

Já os jogos, assim como a TV, causam uma passividade corporal nos pequenos, fator de obesidade infantil. Dependendo de seu conteúdo, pouco exigem intelectualmente e ainda isolam. "Você não coloca as crianças em situações reais para discutir estratégias, escolher, ceder", aponta Lucineia.

Como mãe, Amanda olha com cuidado para a sociabilização, inclusive para ajudar na timidez, uma característica que vê na filha mais velha, de 12 anos. Por isso, sempre tenta integrar as garotas aos amigos e nota que, em grupo, elas chegam a esquecer da tecnologia. "Eu acho que desenvolve o aspecto da afinidade, de saber se impor na sociedade."

Já Fernandes avalia que o bom uso das tecnologias e a divisão de tempo com outras atividades deve partir do exemplo dos pais. Com os filhos mais novos, de 2 e 5 anos, ele delimita regras para o uso do videogame, por exemplo, e sempre busca atividades em família, como uma ida ao parque. "Tudo é tempo, eles podem dar uma chiadinha, mas agora acabou o tempo do videogame e chegou o da lição de casa, do comer em família."

Para a psicóloga, os pais realmente precisam estar próximos dos filhos, como apontou Divino, e não usar as tecnologias para silenciá-los. "Os pais reclamam que a criança brinca 2h e larga o brinquedo novo. Por que isso acontece? Quem sentou para brincar junto com ela? Quem tem repertório para enriquecer essa brincadeira é o adulto."

A doutora em Educação destaca que não se pode demonizar a tecnologia, importante para jogos educativos, por exemplo, ou para um simples momento de entretenimento. Porém, os adultos precisam interagir com os filhos, sem delegar a tarefa aos aparelhos. "Porque senão a criança fica aprisionada numa experiência de poucas vivências humanas, crianças que não obedecem regras, que não sabem brincar com jogos de competição, fazem birra."


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