MÁRCIA JORGE

Semana passada, lancei uma mini-enquete no meu stories do Instagram perguntando se as pessoas achavam que os vendedores que atuavam no varejo de moda eram realmente sinceros. Resultado: 73% das respostas foram NÃO, que sinceridade é um fator duvidoso. Fiquei muito preocupada. Tudo bem, era amostragem diminuta. Na sequência, uma enxurrada de mensagens inbox com argumentos, teorias, justificativas e até perguntas pessoais: "Marcia, alguma vez eu não fui sincera com você?

Por favor me avise!".

Atormentada de questionamentos entrei em três lojas, montei looks completamente improváveis e saía do provador para perguntar a opinião dos vendedores. Para minha surpresa, dois deles me elogiaram copiosamente: "superdescolada","muito chic", "você vai arrasar", 'linda"... E a roupa estava muito assustadora.

Na terceira e última loja em que estive, exagerei no absurdo e finalmente a vendedora falou que não estava bom. Não existia nenhuma possibilidade de ela tentar me elogiar por aquilo: um top de biquíni de lantejoulas prateadas, um colete de pelúcia marrom e um shorts tipo fralda listrado!

Existem vendedores sinceros sim, mas senti que a grande maioria, aprisionada no sistema de metas, acaba pensando a curto prazo e quer fazer aquela venda, independente se o cliente não voltar nunca mais.

Por outro lado, existem os superstars, aqueles que fidelizam o cliente, que aprendem o gosto pessoal de cada um e acertam boas vendas.

Sorte das marcas que têm essas estrelas raras no time, mas estou aqui para falar do nosso lado, as clientes.

Um quadro muito comum, que pode nos acometer uma vez na vida (raro), ou durante algum período de dificuldade pessoal, ou então várias vezes na semana (muito mais comum do que se imagina), é a sensação de vazio que facilmente pode ser abrandada de maneira fictícia com um passeio em lojas, a famosa shopping-terapia.

Precisamos desesperadamente nos sentir recompensadas. Nessa hora, entra um tipo de vendedor não listado acima, ele percebe a sua carência, ele vê em você a oportunidade de faturar em cima da sua dor e entra num estranho papel de "super amigo", e ali iniciarão as intervenções mais estranhas que podem existir em tentativas para temporariamente elevar a sua auto-estima.

Quem nunca esteve triste e entrou em uma loja para distrair e saiu de lá com uma roupa para um casamento ou uma festa que ainda não existem?

Auto-estima é um assunto muito complexo para ser resolvido com uma taça de champanhe e uma selfie no provador com um vestido de uma cor que você não gostava, mas é "a cor do momento"!

Absolutamente normal de vez em quando vivermos situações que minam nosso amor-próprio, mas fique atento se isso está acontecendo com muita frequência.

Naquele momento que você tiver vontade de receber doses de amor-próprio mascarado de venda, vá tomar um café e conversar com alguém que é especial para você: recordem histórias, deem muita risada e se abracem.

Você já tem cinco sapatos pretos, o sexto não te preencherá tanto quanto minutos com alguém que te valoriza pelo o que você é de verdade.

Seja forte para sair desse ciclo-vicioso de vazio-compras-vazio-compras-vazio para entender o que realmente precisa.

Márcia Jorge atua no segmento da moda há 20 anos. Ela defende o consumo consciente e, principalmente, o uso da moda e da imagem para melhorar a qualidade de vida e a auto-estima


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