• Professora da UEM defende livro do MEC

  • Carla Guedes
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Um livro para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), distribuído a 4.236 escolas e a quase meio milhão de alunos pelo Ministério da Educação (MEC), tolera erros de concordância na fala.

A obra, que considera correta as expressões "nós pega o peixe" e "os livro" e prega que o aluno pode esquecer o "s" , deixou os zelosos pela língua culta de cabelo em pé.

Uma das autoras do livro "Por uma vida melhor", Heloísa Ramos, explicou que a intenção foi mostrar que o conceito de certo e errado deve ser substituído por uso adequado e inadequado da língua.

Uma enxurrada de reações à obra tomou conta de jornais e da internet na semana. O presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marcos Vilaça, criticou a adoção do livro pelo MEC e afirmou que os ensinamentos de "Por uma vida melhor" são como "ensinar tabuada errada".

Já a Associação Brasileira de Linguística informou que os críticos se precipitaram ao atacar os ensinamentos do livro. "Não tiveram sequer o cuidado de analisá-lo mais atentamente", disse a entidade, em nota.

Neiva Maria Jung

A professora Neiva Maria Jung, doutora em Letras e professora de Língua Portuguesa da Universidade Estadual de Maringá (UEM), considera que ao tratar do assunto no livro, o estudante – que fala justamente dessa forma –teria mais facilidade em assimilar a norma culta. "Vai levá-lo a discernir em quais ambientes ele pode falar daquela forma".

"O que os autores (do livro) se propuseram a fazer não foi afirmar ao aluno que ele pode continuar falando assim. Em vez de ignorar, o que eles estão fazendo é trazer o assunto para a sala de aula’’.

"A sociedade ainda se vale da linguagem como valor de exclusão social e acha normal que todos tenham de falar e escrever de acordo com a norma culta. Esse discurso é preconceituoso’’.


O Diário - Qual a opinião da senhora sobre o livro que tolera erros de concordância na fala?

Neiva Maria Jung - A postura atual da linguística pede que a escola leve o aluno a compreender o que constitui a linguagem dele na fala. Esse seria o caminho mais fácil para ele aprender a escrita. Da forma como está acontecendo hoje, simplesmente se impõe a norma culta escrita e ainda se deixa claro para o aluno que ele deve falar como ele escreve. E essa é uma tarefa muito árdua e que não acontece. Nem mesmo os que mais zelam pela língua, os mais puristas, não conseguem falar como escrevem. Eles falam uma norma culta, mas que é diferente da escrita. Levar o aluno a entender o que constitui a sua fala parece mais fácil para que ele compreenda o que constitui a escrita.

Qual é, afinal de contas, a diferença entre a fala e a escrita? Elas não são a mesma coisa. A oralidade também deve ser trabalhada nas escolas, mas principalmente a escrita, que é a responsável pela mobilidade social. Esses grupos socioeconomicamente desfavorecidos têm fala bastante diferente e com muitas variações linguísticas porque não têm acesso à escolaridade como os grupos mais privilegiados. Na verdade, o preconceito que gerou essa polêmica é social e como agora existe uma política de combate a todo tipo de preconceito, precisamos começar a mexer nesse assunto, que é muito velado.


O Diário - A escola pode aceitar outras variantes da língua, diferentes das regras gramaticais?

Neiva Maria Jung - Não é que a escola vai aceitar uma carta ou um ofício escrito com variação linguística. Até porque são gêneros que exigem a norma culta. A escola vai corrigir, pedir que o aluno refaça, vai trabalhar para que ele redija um ofício e um requerimento dentro dos padrões da língua culta.

O Diário - Em uma prova não será aceito, por exemplo?

Neiva Maria Jung - De jeito algum, porque a prova pede a norma culta. Ela vai aceitar em um bilhete para o colega, por exemplo. O próprio aluno já sabe o que pode usar no bilhete e em uma carta para a diretora, por exemplo. Ele tem a noção de adequação da linguagem. O que acontece é que os alunos de classes sociais desfavorecidas não têm muito contato com a escrita antes da escola. Eles não têm quem faça essa mediação e mostre o que é da escrita e o que é da fala.

O Diário - Mas está certo dizer "nós pega o peixe"?

Neiva Maria Jung - Certo e errado é relativo. Há certos grupos sociais no Brasil que falam ‘nós pega o peixe’. Pelo menos no capítulo ‘Escrever é diferente de falar’ (do livro distribuído pelo MEC a alunos da EJA), o que os autores se propuseram a fazer não foi afirmar ao aluno que ele pode continuar falando assim. A escola faz de conta que isso (a variante) não existe. Em vez de ignorar, o que eles (autores do livro) estão fazendo é trazer o assunto para sala de aula.

E mais: precisamos explicar linguisticamente porque a pessoa fala ‘nós pega o peixe’. Por que só há marca de plural no primeiro elemento? Na verdade, essa marca é redundante. O português culto pede que se repita, mas a sociedade economiza tempo e essa economia também acaba indo para a linguagem. O livro leva o aluno a refletir e é um caminho para que ele entenda porque o ‘nós’ passou para ‘nóis’ e ‘peixe’ não é mais ‘peixe’, e sim ‘pexe’.

O que aconteceu linguisticamente? O professor estaria levando o aluno a compreender a gramática da língua que ele fala e da que ele vai aprender para escrever e para falar em situações formais. Ressalto que o preconceito não é resultado da questão linguística, ele é social.

O Diário - Ao citar esses exemplos no livro, ficaria mais fácil para o estudante assimilar a norma culta?

Neiva Maria Jung - Parece que sim. O que está acontecendo é que a escola simplesmente ignora a forma de falar do aluno e finge que ele não fala diferente. O estudante chega à escola e percebe que a forma que ele fala não está correta. Isso não é claramente dito, está nas entrelinhas. Então, ele começa a silenciar. Colocar o assunto em discussão talvez seja uma forma de trazer o conhecimento do aluno para a sala de aula. O estudante tem de se sentir parte da construção do conhecimento. Como ele vai participar se o que ele tem e o que constitui sua identidade a escola simplesmente despreza? Ele precisa sentir na escola que o ele sabe tem valor e não simplesmente achar que tudo o que aprendeu até então não tem valor.

Essa forma talvez faça com que ele reconheça que há diferentes gêneros orais e que ele precisa se apropriar deles para conseguir mobilidade social. Caso contrário, ele não vai conseguir se inserir em determinados lugares da sociedade, não vai conseguir passar em concurso público e no vestibular.

O Diário - A senhora acha que houve muita polêmica sobre o assunto?

Neiva Maria Jung - Acho e fiquei até estarrecida. Eu achava que nós, como sociedade, já tínhamos avançado um pouco mais. Até li um artigo (sobre o tema) que fazia relação com a Semana de Arte Moderna de 1922. E nós mudamos tanto desde então, mas de repente um fato que já deveria estar acontecendo nas escolas gera toda essa polemica.

Isso mostra que os linguistas tem muito a fazer. A sociedade ainda se vale da linguagem como um valor de exclusão social. A sociedade acha normal que a gente tenha uma norma culta e que todos tenham de falar e escrever de acordo com ela. Esse discurso é preconceituoso porque o que se faz é deixar à margem da sociedade toda a população que não fala e escreve na norma culta. A escola precisa ensinar a outra variedade para garantir a mobilidade social do estudante.

O Diário - Há riscos para os alunos pelo fato de a escola tolerar erros de concordância?

Neiva Maria Jung - Se trouxermos isso para a sala de aula estaremos incentivando os alunos a falar errado? Não, ao contrário. Isso vai auxiliar e levar o aluno a perceber o que é a norma culta e o que é a variedade que ele fala. Vai levá-lo a discernir em quais locais pode falar de qual jeito.

O Diário - Antes, o acesso à escola era restrito, hoje é mais democrático.

Antes, quem tinha acesso à escola eram os grupos elitizados. Os próprios professores eram elitizados. Depois que a escola abriu (os portões) para todos, outros grupos sociais passaram a frequentá-la. A maioria dos professores de hoje são desses grupos sociais. Com a entrada deles, veio a variação linguística e a escola não quer dar conta dela, é mais fácil ignorar.

O Diário - Quem fala errado consegue escrever certo?

Neiva Maria Jung - Sim, se você tem contato com a escrita e se passou por uma escola que lhe ensinou. Você percebe que uma coisa é do gênero escrito e outra do falado. Tanto é que em muitas situações esquecemos um ‘s’ ao falar, mas dificilmente escreveríamos sem essa concordância.

O Diário - Por que abordaram o tema em um livro didático distribuído na Educação de Jovens e Adultos?

Neiva Maria Jung - Porque são grupos que não tiveram acesso à escola e essas variantes são muito presentes (na vida deles).

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Comentários

13 comentários

  • Cleiton Vieira de Assuncao
  • | 22/05/2011 11:35:30
  • Fui aluno da professora Neiva em 2004. Excelente professora. Em minha época o grande problema do curso de Letras da UEM é que o curso era voltado praticamente somente para formação de pesquisadores e não de professores capacitados para atuar em sala.
  • Cleiton Vieira de Assuncao
  • | 22/05/2011 11:35:58
  • De fato temos um grande número de professores em sala de aula sem capacitação para tal atividade. E este sim é um problema a ser discutido.
  • Cleiton Vieira de Assuncao
  • | 22/05/2011 11:36:11
  • O material do MEC, seja ele ruim ou bom, na mão de um professor competente é apenas mais uma ferramenta de trabalho.
  • Évelin Anhõn
  • | 22/05/2011 15:58:47
  • Todo mundo quer ter uma opinião sem conhecimento. Basta um jornalista mal informado da globo se atrever a fazer uma matéria sobre um assunto que ele não sabe, pra TODO MUNDO sair detonando o livro que nunca viu! A professora Neiva explicou muito bem.
  • @RomualdoCDias
  • | 22/05/2011 17:54:32
  • Está certo o MEC. Acho admirável depois de tanto tempo, descobrir que nossos pioneiros do interior, nunca estiveram errados no modo da fala enquanto linguagem. Muitos sofreram com preconceitos pejorativos, por causa da falta de escrita e leitura.
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