Os iranianos vão às urnas amanhã para eleger o próximo presidente do país, em eleições que estão sendo observadas de perto pela comunidade internacional e por agentes do mercado. A votação também é vista como uma espécie de referendo sobre o futuro do acordo nuclear do país com potências ocidentais, que permitiu ao Irã reingressar no mercado internacional de petróleo.

Favorito nas pesquisas de intenção de voto, o atual presidente, Hassan Rouhani, pode se reeleger já no primeiro turno e evitar uma disputa mais apertada com seu principal oponente, o conservador linha-dura Ebrahim Raisi. Embora a campanha de Raisi não tenha ganhado ímpeto, ele conta com a simpatia do líder supremo da nação islâmica, o aiatolá Ali Khamenei. De acordo com levantamentos do instituto de pesquisa IppoGroup, Rouhani tinha ontem o apoio de cerca de 65% dos eleitores, contra cerca de 33% de Raisi. Os outros dois candidatos na disputa eleitoral, Mostafa Hashemitaba e Mostafa Mir-Salim, não contavam com apoio significativo no levantamento.

Apesar de não ter apoiado explicitamente nenhum candidato, ontem o aiatolá apareceu em um discurso televisionado e pediu para que os iranianos mandassem uma mensagem para os Estados Unidos, em uma votação que seria "uma reviravolta" e "um grande épico popular". Ele afirmou que enquanto o resto do Oriente Médio está "mergulhado em ansiedade", o Irã realiza eleições pacíficas, que serão acompanhadas por Washington, pelos aliados dos americanos na Europa e pelo "patético primeiro-ministro do regime sionista", referindo-se ao líder israelense, Benjamin Natanyahu.

As palavras soam como uma provocação às lideranças ocidentais com quem Rouhani conquistou o acordo nuclear nos últimos anos. O tratado resultou na suspensão de sanções através do recuo do programa iraniano de enriquecimento de urânio, como o veto à exportação de petróleo pelo país. Deve-se considerar que, além da suposta simpatia do líder supremo, o principal oponente de Ruohani conta com o apoio da maioria dos órgãos clericais do Irã e aliados do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, que foi um fervoroso opositor do governo da Arábia Saudita, aliada dos americanos.

Para a consultoria política Eurasia, Rouhani pode perder a chance de se reeleger se as organizações conservadores do Irã conquistarem votos da zona rural, que corresponde por 20% da população do país e tende a ter escolhas conservadoras. A Eurasia também observa que caso o presidente se reeleja, deve ser enfraquecido por críticas públicas sobre o efeito prático do acordo nuclear na economia.

Traders e investidores do mercado de petróleo estão atentos aos acontecimentos no Irã, já que qualquer ameaça ao acordo nuclear pode resultar na volta de sanções contra as exportações do combustível fóssil produzido no país. Caso o Irã seja proibido de continuar exportando seu petróleo, o mercado deve observar uma redução da oferta global e um consequente aumento dos preços. As eleições acontecem a apenas uma semana da reunião de cúpula da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para discutir um possível corte na produção do cartel, a fim de equilibrar os preços.

Na noite de ontem, Washington enviou sinais aos eleitores do Irã sobre qual é a sua preferência na corrida presidencial. Enquanto aprovava isenções às restrições relacionadas ao acordo nuclear, a Casa Branca anunciava novas sanções contra autoridades de Defesa do Irã por suas supostas "ações maléficas" no Oriente Médio, como o fornecimento de armas a grupos que apoiam o presidente da Síria, Bashar al-Assad, contra quem os EUA fazem campanha pela queda. Isso acontece semanas depois de o governo de Donald Trump aprovar o envio de armamentos pesados a um grupo de curdos que luta contra Assad na guerra Síria, que assolou o país e causou uma das maiores crises humanitárias desde a Segunda Guerra Mundial.

Além disso, Trump inicia amanhã uma viagem para a Arábia Saudita, percebida como inimiga por iranianos conservadores. O governo americano está pressionando por uma nova coalizão entre Estados árabes moderados e tem se mostrado aberto à cooperação com Israel, que também receberá Trump e tem uma relação historicamente conflituosa com Teerã. (Matheus Maderal, com informações da Associated Press - [email protected])

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