"Definitivamente o festival faz jus ao nome. É como se fosse um paraíso. O lugar, o clima, o astral das pessoas, a recepção da produção e do produtor. São poucos os festivais que eu tive esse tipo de vibe." As palavras do músico pernambucano Juvenil Silva definem bem o que é o Paraíso do Rock, que começa hoje e vai até amanhã em Paraíso do Norte (a 100 quilômetros de Maringá).

Os dez anos de luta cultural de Carlos "Beto" Vizzotto, o ex-prefeito da pacata Paraíso do Norte (cerca de 100 km de Maringá), não se resumem apenas ao entretenimento da cidade. Além das mais de 80 bandas nacionais e internacionais que levou para o município de 12 mil habitantes nessa primeira década de festa, Beto fomenta a cultura como poucos eventos fazem pelo País.

Desde a primeira edição, em 2008, ainda discreta e com bandas mais locais, as reuniões na casa da família Vizzotto são parte essencial do Paraíso. "Gostamos de festa e respeitamos muito os músicos. Então, sempre abrimos a nossa casa para o pessoal ficar, conversar, fazer festa e acabou virando um diferencial e foi ficando. Não foi nada planejado", conta o organizador.

Entre a família Vizzotto, juntam-se irmãos, sobrinhos, amigos dos filhos, amigos mais próximos, jornalistas, produtores culturais e bandas de todo o Brasil. Trocas de informações, ideias, algumas garrafas de cerveja, bons discos e a vibe citada por Juvenil realmente acontecem. Nada como uma recepção calorosa de cidade do interior.

Com esse afeto, bandas como Autoramas, Wander Wildner, Zeferina Bomba, Juvenil Silva, Walverdes, Replicantes, Faichecleres e as maringaenses, Sollado Brazilian Groove, A Inimitável Fábrica de Jipes, Bandidos Molhados, Brian Oblivion e Seus Raios Catódicos e algumas outras já foram recebidas.

Além de alguns nomes internacionais: Jarrah Thompson (Austrália), Dead Elvis (Holanda), Molina y Los Cósmicos (Uruguai) e Pelea de Gallos, Valle de Muñecas, NormA e Los Cocineiros de Cordoba, da Argentina.

Apesar de reconhecer que a luta contra o mainstream e a "massificação do rádio e da TV" é desproporcional, Beto segue firme. Os 56 anos e a mulher Cíntia dizendo que é hora de sossegar parecem não fazer diferença. Ele já pensa nos próximos. Na lista de bandas que ainda pretende trazer estão Ultramen e Siba. E ainda lamenta a morte de Jupiter Maçã, em 2015, com quem tentou organizar um show durante três anos.

E pensando carinhosamente no aniversário dos dez anos do quarto "filho", Beto decidiu trazer este ano um pouco do que já passou pela festa, mas também não sair da principal ideia de "apresentar coisas novas a juventude".

As bandas Helvéticos (SC), Seu Pereira e Coletivo 401 (PE), Wander Wildner (RS), Almirante Shiva (DF) se apresentam hoje e Cadillac Dinossauros (PR), Las Diferencias (ARG), Acústicos e Valvulados (RS), Corpsia (PR), amanhã, no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) de Paraíso do Norte. O passaporte para participar dos dois dias do evento custa R$ 30.

 

Divulgação
Las Diferencias: banda argentina formada por Alejandro Navoa (baixo), Andrés Robledo (vocal e guitarra) e Nicolás Heis (baterista) em 2011

 

Vizinhos
Entre as propostas de trazer diversidade cultural à população, entra sempre a preocupação de bandas autorais e uma conexão entre o Nordeste brasileiro, o Sul e os irmãos da América Latina.

Dessa vez a escolha internacional foi feita a dedo: Las Diferencias. Banda argentina formada por Alejandro Navoa (baixo), Andrés Robledo (vocal e guitarra) e Nicolás Heis (baterista) em 2011, que levou este ano o prêmio de Melhor Álbum Novo de Artista de Rock no Prêmio Gardel, um dos mais consagrados da Argentina.

Com apenas dois discos lançados ("No Termina Más", de 2013, e "Al Borde del Filo", de 2016), o trio sai pela primeira vez em turnê internacional. E aterrissa logo de cara no Paraíso, antes de voarem para Goiânia, em agosto, no Goiânia Noise Festival.

Animado para trazer o rock argentino para terras brasileiras, o baterista Nicolás trocou alguns e-mails com o Diário e falou um pouco da banda, dos discos, prêmio e o show de amanhã:

Paraíso está há dez anos no circuito de festivais, entre tantas coisas, pela abertura que dá a música autoral brasileira, principalmente a cantada em português. Aí na Argentina, qual a dificuldade de se fazer rock com letras em espanhol?
Na Argentina há um espaço muito grande entre as bandas do mainstream e as bandas independentes, há pouco lugar para que uma banda nova possa se fazer conhecida e as empresas discográficas apenas investem naquelas bandas da década de 1990 e 2000, que tiveram muito êxito e não levam nenhum risco, isso gera um público que segue consumindo rock de vinte anos atrás. O rock, no início, foi cantado em inglês e as bandas mais míticas são nesse idioma, mas a Argentina sempre foi um país pioneiro que encontrou sua forma de adaptá-lo ao espanhol e teve muito êxito em toda américa latina.

Vocês acabaram de ganhar o prêmio de Melhor Álbum Novo de Artista de Rock no Prêmio Gardel, um dos mais consagrado da Argentina, com o disco "Al Borde del Filo". Como artistas independentes, era algo que esperavam?
Era algo que não esperávamos, porque não acreditávamos que dentro da grande quantidade de discos que se fazem por ano o nosso podia estar nesse lugar, e menos ainda sabendo que muitos desses discos pertencem a grandes empresas discográficas. Estamos muito felizes pelo reconhecimento e foi uma alegria para todas as bandas independentes do underground de nosso país.

Aqui pelo Brasil, uma banda independente ganhar um prêmio dessa magnitude, tocando o mesmo estilo de música que vocês tocam, seria no mínimo um espanto. Como foi a recepção do público a respeito do prêmio que vocês ganharam?
Foi uma alegria para todas essas pessoas que nos escutam desde o primeiro dia e veem como lutamos. De outro lado as bandas independentes ficaram felizes e foi uma vitória para todos.

Talvez essa pergunta seria melhor para os jurados, mas gostaria de saber o que vocês pensam sobre o assunto. Por que o prêmio de Melhor Álbum Novo de Artista de Rock foi para vocês?
Se tenho que pensar em algum motivo, acredito que esse é um álbum muito variado musicalmente e se você gosta do rock pesado ou mais tranquilo, como uma balada, tem músicas para todos os gostos. Com certeza o júri, conhecendo Las Diferencias antes ou não, encontrou a música com a qual se identificou.

Algo muda na produção da banda, musicalmente, depois da premiação?
Não, na produção não muda nada. Mas sim em um incentivo a nós mesmos para nos obrigar a tentar fazer com que o próximo disco seja melhor e não dormir nos louros do passado.

Tentando esquecer um pouco do prêmio agora, qual a importância do "Al Borde del Filo" na carreira de vocês?
É muito importante porque primeiro e principalmente, este é o disco que reflete até hoje em dia mais fielmente o que temos sobre o que queremos de Las Diferencias. Nos deu nosso primeiro reconhecimento, nos levou para tocar em muitas províncias da Argentina e estamos saindo pela primeira vez para tocar em outros países.

Entre "No Termina Más" e "Al Borde del Filo" foram três anos. Por que esse tempo para gravar o segundo disco?
Quando editamos nosso primeiro disco tivemos a sorte de ser muito bem recebido e pudemos sair para tocar muito, ganhar experiência e isso nos deixou pouco tempo para fazer novas músicas. Por outro lado tivemos a necessidade de buscar uma sala onde ensaiar todos os dias e demorou um tempo para encontrar. Em meados de 2015 encontramos e em janeiro de 2016 já tínhamos todos os demos gravados.

Com essas diferenças musicais dos discos do Las Diferencias (stoner rock, balada, rock mais para o clássico dos anos 1970), eu pergunto: Quais as principais influências da banda?
Nossa influência, sem dúvida alguma, é a música negra. Desde os grandes "blueseros" como Albert King e Son House, gênios do soul como Wilson Pickett, Isaac Hayes, Curtis Mayfield e Marvin Gaye, até música afro como Fela Kuti. Gostamos muito do ritmo e pensamos em tudo a partir daí.

Em relação a música brasileira. Alguma referência daqui?
A música brasileira é muito importante para nós. Em nossas casas sempre se escutou discos de Toquinho e Vinícius, Maria Creuza. Nos últimos tempo gostamos muito de um disco de soul de Cassiano ("Apresentamos Nosso Cassiano") e começamos a escutar músicas de Jorge Bem que nos pareceram muito boas. Com certeza algo disso já seja direta ou indiretamente algo que influencia na nossa música.

O que o público de Paraíso do Rock pode esperar do show da Las Diferencias?
É um show com músicas de rock que se deixa levar pelo momento e improvisando para que ele seja único e "irrepetível". Muito simples: uma banda que vai deixar tudo que tem para que o ouvinte aproveite.

PARAÍSO DO ROCK
Quando: hoje e amanhã
Onde: Paraíso do Norte
Quem: várias bandas
Preço: R$ 30 para os dois dias
Informações:
www.paraisodorock.com.br

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