• Vila rural da Cohapar vira condomínio de lazer

  • Edmundo Pacheco

Um programa destinado a trabalhadores rurais, desenvolvido na gestão do governador Jaime Lerner (1994-2002), executado pela Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar) e financiado pelo Banco Mundial, foi transformado em condomínio de lazer em Mandaguaçu, na região metropolitana de Maringá.

Das 75 famílias assentadas em 1996 na Vila Rural Elza Lerner, 18 ainda moram no local. Mesmo sem ter a escritura, a maioria vendeu os lotes – prática irregular. Os novos proprietários construíram novas casas ou reformaram. Algumas tém piscina e até campo de futebol.

 

Imóvel com placa de "vende-se" de imobiliária na vila rural. O preço pedido pelo proprietário é de R$ 1 20 mil

 

"Viver aqui é difícil, mas é bom. Os traíras abandonaram a vila e venderam para esse povo que só aparece nos fins de semana", desabafa o aposentado Geraldo Lima da Silva, 63 anos. Ele e a mulher moram na vila rural desde 1996, quando foram escolhidos para participar do programa, colocado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como exemplo para o mundo.

 

Divulga??o

Casa com piscina que também está
à venda na vila rural


Oliveira: "As casas estão sendo

reformadas para servir de área de

lazer"

"A propriedade não é grande e é difícil viver só da terra, mas para quem é aposentado dá", diz Silva, contando que planta café, frutas e cria porcos e galinhas na área.

 

O aposentado critica as pessoas que venderam o terrenos de 5 mil metros quadrados e abandonaram o projeto. "Era todo mundo amigo, trabalhava junto. Hoje, a maioria das casas fica fechada a semana toda. Uma tristeza", completa.

Na frente da casa de Silva há uma propriedade à venda por R$ 150 mil. O atual dono, contatado por telefone pela reportagem, não quis se identificar, mas contou não ser o primeiro proprietário do imóvel. "Eu comprei de um conhecido, que também já não era o dono original."

Ele explica que apesar de não ter escritura existe a possibilidade de se conseguir o documento, caso seja quitado um financiamento. "São como casas populares. Pago cerca de R$ 30 por mês. A minha, com cerca de R$ 5 mil pode ser quitada e depois é possível fazer a escritura".

A "chácara de lazer", segundo o vendedor, tem cerca de 200 metros quadrados de área construída, garagem, espaço para piscina e campo de futebol, além de uma tulha. "É muito sossegado. Domingo pode ir que estou lá com a família."

Duas outras pessoas que colocaram imóveis da vila rural à venda se esquivaram, dizendo que só passariam informações sobre as áreas pessoalmente. Uma mulher, cujo telefone está na placa de uma das primeiras propriedades, na entrada da vila, disse desconhecer a venda do terreno.

O motorista Aparecido de Oliveira, 65, que apesar de aposentado há 15 anos dirige o ônibus que transporta os funcionários da Usina Santa Terezinha, discorda da negociação. Para ele, o projeto da vila rural era para beneficiar os trabalhadores e não poderia ter virado condomínio de luxo. "É uma judiação.

Eu levava todos daqui para cortar cana, agora só pego 18. A maioria vendeu e foi embora. As casas estão sendo reformadas para servir de área de lazer. No domingo fica lotado de carros e camionetes. A maior parte é gente ‘grande’ de Maringá, que vem passar o fim de semana, fazendo churrasco e jogando futebol."

Oliveira diz que contou pelo menos cinco casas com piscinas construídas na vila e disse saber de umas 20 à venda. "Quase todo mundo vendeu ou está vendendo", informa, mostrando a casa do vizinho, fechada, com uma placa de vende-se de uma imobiliária de Mandaguaçu. Na empresa, o corretor que se identificou apenas como Ricardo, disse não ver problema na venda dos terrenos e garantiu que não há qualquer impedimento.

"A escritura definitiva pode ser conseguida, bastando quitar o financiamento. Muitos lá já têm escritura e não há problema nenhum na venda", disse. "No momento só tenho uma chácara, mas meu pai sabe de outras lá. A que está aqui na imobiliária tem uma casa boa, de dois quartos. O dono pede R$ 120 mil e aceita permuta por carros", informou.

Outro proprietário, José Carlos, tem uma das maiores e mais bonitas chácaras de lazer da Vila Rural Elza Lerner. É a primeira na entrada da vila, com 6,7 mil metros quadrados, piscina, campo de futebol com alambrado, casa de alvenaria e pomar produzindo. "Tudo quitado e escriturado. Comprei dentro da Cohapar, sem problema nenhum", garantiu. Ele pede R$ 180 mil pela propriedade.

 

Saiba mais

A primeira
A Vila Rural Nova Ucrânia, de Apucarana, foi a primeira a ser implantada no Estado. O local recebeu 65 famílias. A Prefeitura de Apucarana informa que os trabalhadores continuam na área e produzindo.

O programa
Criado em 1995, o programa Vila Rural foi financiado pelo governo do Estado, com recursos a fundo perdido obtidos junto ao Bird. Tinha como objetivo fixar o trabalhador rural no campo, garantir espaço para a produção agrícola de subsistência e geração de renda. Os selecionados receberam lotes de acordo com os critérios do programa, financiados em 25 anos, com parcelas de R$ 30 a R$ 40 por mês.

 

Para lembrar

Em janeiro de 2009, O Diário denunciou situação semelhante nas vilas rurais de Cruzeiro do Sul e Paranacity. "Tem gente comprando lote em vila rural para construir área de lazer; são locais para fazer churrasco, que têm piscina e até mesmo campo de futebol", denunciava um morador da cidade, que não quis se identificar.

A reportagem de O Diário encontrou sobrados construídos na Vila Rural Alide Ropelato e amplas casas, três vezes maiores que o padrão instituído pela Cohapar, construídas na Vila Rural Monte Alto, também em Paranacity.

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