Os SUVs são a sensação do mercado de carros do Brasil. A maior parte dos consumidores pretende ter um. Num contexto em que, conforme a classificação do Inmetro, quase todo carro alto pode almejar para si o título de utilitário-esportivo, é o mercado quem ditará que veículo é ou não é SUV.

Esta é a leitura do consultor automotivo Paulo Roberto Garbossa. "De nada adianta uma marca chamar seu carro de SUV se o consumidor não enxergá-lo assim", analisa. "O mercado é que dita essa regra." No perfil do Facebook da reportagem, perguntamos quais são suas percepções sobre diversos modelos que o Inmetro classifica como utilitário-esportivo compacto. No caso do Kwid e do WR-V, o post obteve 85 respostas.

Do total, nenhum leitor afirmou considerar o Kwid um SUV. Ele foi classificado como compacto ou subcompacto. Para o WR-V, houve quem o considerasse crossover. A maioria, porém, acredita que um carro é uma versão mais alta do Fit. Poucos leitores definiram EcoSport, Kicks Creta e HR-V como utilitários-esportivos. A maior parte os classificou como crossovers. O único compacto mais visto pelos leitores como utilitário é o Jeep Renegade.

O termo veículo utilitário esporte (SUV), ou utilitário-esportivo, surgiu para designar os modelos com características de jipe, mas com itens de conforto de modelos de passeio. Esses carros, na origem, eram feitos com carroceria sobre chassi. No Brasil, exemplos são o Toyota Hilux SW4 e o Chevrolet Trailblazer.

"Com a proliferação dos modelos com carroceria do tipo monobloco (feitos em base de carro de passeio), os americanos passaram a utilizar o termo crossover para diferenciar esses veículos dos feitos sobre chassi", explica o engenheiro e jornalista especializado em automóveis Fernando Calmon. "Ainda assim, como no Brasil, em todo o mundo a classificação de utilitário-esportivo é bem confusa. Varia bastante conforme o país."

Crossover, porém, é um termo que vai além dos utilitários-esportivos. Ele é usado para definir os carros que trazem características de dois ou mais segmentos. Assim, modelos com carroceria de utilitário-esportivo e base de carro de passeio podem ser chamados de crossover. O Porsche Panamera, no entanto, também pode. Ele tem características, em sua carroceria, de cupê e sedã.

Estilo de vida

O mercado automotivo brasileiro atualmente é SUV. A sigla em inglês para veículo utilitário esporte – tipo de carro que no Brasil é chamado também de utilitário-esportivo – está sendo usada para classificar diversos automóveis de passeio sem nenhuma capacidade off-road. Para especialistas de mercado e engenheiros ouvidos pela reportagem, isso está ocorrendo porque há uma demanda do consumidor por SUVs, que, na verdade, não são uma categoria de carro (como hatches, sedãs e peruas, por exemplo). "O termo é um conceito de marketing, não um segmento automotivo", diz o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK.

O engenheiro da SAE Brasil Reinaldo Muratori tem opinião semelhante: "Como não há legislação sobre definição de SUV em nenhum lugar do mundo, tudo depende do nome comercial." Assim, segundo o especialista, os SUVs, que nos EUA inicialmente designavam modelos derivados de picapes, foram sendo adaptados e hoje são empregados até para "hatches anabolizados".

As montadoras estão usando a classificação criada pelo Inmetro para o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBVE) para declarar que seus carros são utilitários-esportivos, ou SUVs. Dois exemplos recentes vieram da Renault, com o hatch Kwid, e da Honda, com o monovolume WR-V. "Em nenhum outro lugar do mundo um Kwid seria 'O SUV dos compactos' (slogan do carro)'. Ele não é utilitário nem compacto É subcompacto", diz o engenheiro e jornalista especializado em automóveis Fernando Calmon.

Para o especialista, o termo utilitário, se for levado ao pé da letra, deve ser atribuído apenas aos carros que têm real capacidade off-road. "Na minha opinião, o Inmetro deveria exigir o cumprimento de todos os parâmetros, não apenas de quatro. A maioria dos modelos hoje listados como utilitários-esportivos não conseguiria cumprir o ângulo de transposição, que é o que realmente define se um veículo é capaz de transpor obstáculos."

De acordo com Calmon, o problema não é só o Kwid. Modelos como HR-V, Creta e até mesmo algumas versões do Renegade não deveriam ter a classificação de utilitário. Nenhum tem real capacidade off-road. "Os SUVs do Brasil não trazem nem mesmo tração 4x4", complementa Garbossa.

Coordenador do PBVE, Alexandre Novgorodcev entende que, no Brasil, utilitário-esportivo não é um carro off-road, é um carro urbano. Pelos critérios, a maioria dos altos, sejam eles hatches, sedãs ou peruas, entre outros, é classificada como SUV. "É um tipo de veículo diferente do fora de estrada. Os critérios são mais rigorosos, com exigência de uso de pneu off-road."

São poucos os modelos classificados pelo Inmetro como fora de estrada. Na lista, estão algumas versões 4x4 de EcoSport, Renegade, Compass e SW4, além de Jeep Wrangler e Troller T4. Em contrapartida, não há nenhum Land Rover, marca conhecida pelos veículos com alta aptidão off-road. Isso porque, no País, eles não trazem pneus off-road de série – o item é opcional.

Para Garbossa, o brasileiro não compra um utilitário pela capacidade off-road, nem mesmo pelo status. "O que importa é a flexibilidade de espaço e, principalmente, a posição de dirigir alta, que passa sensação de segurança ao volante." Ao que parece, SUV virou conceito de carro urbano alto.


ALTO. 4x4 Jeep Renegade é um dos chamados de SUV: precisa transpor obstáculos.—FOTO: DIVULGAÇÃO

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