Muito já se falou em prato típico maringaense. Na primeira metade do século passado, até um concurso foi realizado para se concretizar desejo nunca formalmente expresso. A iniciativa não tinha caráter oficial e surgiram todo tipo de sugestão: de pizza a feijoada, de macarronada a cachorrão. Prevaleceu o porco no tacho que em seguida justificou até uma festa realizada no estacionamento do estádio. Terminado o evento, encerraram-se também as especulações sobre se a receita seria acatada como a referência da gastronomia local. O prato mais pontuado na consulta tem lastro histórico e remete ao hábito rural de preservar a carne de porco em latas com banha. A receita acabou se transformando numa iguaria festiva celebrada por alguns municípios da região, como Lobato. Seria excessivo sublinhar que se trata de um prato típico da pequena cidade. O mesmo vale para diversas outras festas que apresentam a leitoa ou carneiro como protagonistas, preparados das formas mais inusitadas. Dificilmente se encontra nos restaurantes das cidades os pratos tão celebrados nos eventos.

O barreado é o prato típico do Paraná, mas não sobe a serra: é fácil encontrá-lo em Paranaguá, Morretes e Antonina, mas raramente no cardápio de restaurantes da capital ou interior. Aliás, entre as três cidades sempre existiu uma silenciosa discussão sobre a 'paternidade' do prato, o símbolo de fartura, festa e alegria. O nome vem da expressão "barrear" a panela, com um pirão de cinza ou farinha de mandioca, para evitar que o vapor escape e o cozido seque depressa. A receita é antiga e atribuída aos açorianos que começaram a chegar ao Brasil no século 17. Do Pará, famílias lusitanas se espalharam pelo país, o que incluiu o litoral paranaense. A imigração se intensificou a partir da década de 1910. Os tropeiros também contribuíram de alguma forma para a definição do prato, hoje uma iguaria para seduzir turistas. Mas refinar essa história é concluir que o prato está associado à tríplice aliança (história, cultura e tradição), que costuma definir hábitos alimentares – e a sugestão do porco no tacho como prato típico de Maringá se insere nessa perspectiva.

Não há uma discussão – como nunca houve de fato – de Maringá adotar um prato típico. Até porque a cidade, como tem demonstrado sucessivas administrações, tem pouco apelo pela sua história. Não que uma receita específica cumpriria esse papel – ou daria aos mais conservadores uma satisfação. Então, o debate se perde entre outras urgências, como a recuperação da velha Maria Fumaça que apodrece no Parque do Ingá e junto com ela um trecho animado da nossa história, parte dela construída sobre trilhos. Talvez o porco no tacho seja uma referência saborosa e oportuna para sublinhar passado recente de quem derramou suor na lida dura da roça e se sentou à mesa para comer arroz, feijão, mandioca frita, quiabo frito, frango ao molho e salada de serralha (serraia na linguagem popular). Nesse banquete o porco na lata entrava como complement0 – nunca como prato principal. Isso não lhe tira o protagonismo histórico e muito menos a candidatura para ser prato típico. Particularmente, creio que o cachorrão, no que a cidade é muito competente, tenha mais atributos para o cargo.

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