Claro que a pergunta pode ser estendida a outros produtos e a resposta, quase sempre, evoca a carga tributária. Os impostos representam cerca de 65% do preço final ao consumidor. Mas no caso específico da bebida o preço elevado tem muitas outras explicações, a começar pelo consumo, estabilizado há anos no patamar de 2 litros/per capita. Pior: mais de 70% do vinho que enche taças e copos no país são de 'vinhos populares' (de garrafão, para uma melhor compreensão). São vinhos produzidos com uvas de mesas e não de vitis vinífera. Nas regiões produtoras de vinho mais destacadas do mundo o cultivo de variedades de mesa para a elaboração de vinhos é proibido. No Brasil a questão é controversa, com bons argumentos brandidos dos dois lados da mesa.

Se ao chegar à loja especializada ou no supermercado o vinho carrega o peso enorme dos tributos, traz consigo também as complexidades da produção. Custo de insumos, produção e mão de obra ajudam a definir o valor de uma garrafa, cujo conteúdo é expressivo também de valores como rotulagem, embalagem, vedação e transporte. Mas é no campo, sujeito às variáveis do clima, que se define a qualidade de um vinho – e, por extensão, seu preço. Tecnicamente, elaborar um vinho 'pobre' em sabores e aromas é fácil. Difícil é obter um produto mais elaborado, que exige, por exemplo, colheita diferenciada, bago a bago às vezes. O conjunto de exigências para a elaboração de um vinho é diretamente proporcional ao seu preço.

Mas se o peso dos tributos fosse aliviado e todo a cadeia produtiva se beneficiasse de valores menos extorsivos, talvez o recuo no preço não seria tão expressivo. O vinho - e não só no Brasil, reveste-se de uma aura glamorosa: é bebida 'fina', servida com requinte e, como tal, consumida. Essa imagem tem sido criada por críticos e publicações especializadas, que retocam esse contorno com pontuações e análises que transformam rótulos em objetos inacessíveis. Então, se paga pelo 'valor agregado', aspecto tão criticado por Jonathan Nossiter no documentário Mondovino, onde o cineasta tenta desconstruir essa imagem com depoimentos de produtores das principais regiões produtoras do mundo.

O conceito de nobreza não é privilégio dos rótulos mais aclamados: é extensivo ao vinho em todas suas instâncias de qualidade, com uma ou outra exceção. Na mesa de restaurante o vinho alcança seu preço mais extorsivo. Inaceitável que um rótulo, sabidamente simples, de valor modesto, alcance preços assustadores na carta. Nada mais comum que um vinho adquirido em lojas especializadas na faixa de R$ 50 custar mais do que o dobro num restaurante. É fácil se gastar duas ou três vezes o valor do prato no consumo de um vinho. E nada de rótulos reconhecidos como absurdamente caros em sua origem. Então, não se trata apenas de repensar custos, mas também o conceito cultural do consumo de vinho, algo que parece não despertar interesse algum.

O raciocínio é lógico e nenhum pouco inovador: o aumento da base de consumo provocaria, em tese, redução no custo. Mas toda a comunicação (da indústria à distribuição) enfatiza o alcance do consumidor já iniciado. 'Fala' com ele em revistas e sites especializados, dispensando pouca ou nenhuma preocupação em valorizar o vinho e suas virtudes como uma bebida de alcance mais amplo, e não localizado em nichos específicos. O espumante parece caminhar em outra direção, com produtos de qualidade a preços bem acessíveis. Mas pode inverter essa trajetória se o país continuar a angariar prêmios internacionais pela expressão de seus rótulos - e a Serra Gaúcha fortalece a tese de 'Champagne' brasileira, referência à clássica região francesa, berço 'original' da bebida.

Fardo tributário favorece estrangeiros
A elevada taxa tributária aplicada sobre o vinho brasileiro se sustenta na tese de que se trata de uma bebida alcoólica e não um produto essencial, como acontece na Espanha, por exemplo, onde é complemento alimentar. A percepção, muitas vezes correta, de que o produto importado é mais barato, se justifica pelo custo de produção, menor nas principais regiões produtoras do mundo. Então, o rótulo entra no mercado nacional em condições de competir (com vantagem!) com o produto nativo. No caso do Mercosul, o que inclui reconhecidos países produtores de vinho, como Argentina e Chile, a questão tributária ainda é mais curiosa. Como se beneficiam da chamada Tarifa Externa Comum, entre outros acordos, têm vantagens fiscais que tornam seus produtos extremamente competitivos em relação ao vinho brasileiro, que patina no pântano tributário e nos custos de produção.

Documentários desnudam mercado de ilusões
No documentário Mondovino, de 2004, o cineasta Jonathan Nossiter, leva suas câmeras para as principais regiões produtoras de vinho do mundo para mostrar como a bebida perdeu suas raízes históricas para se tornar uma commodities, sustentada em rótulos com apelo essencialmente comercial, sem nenhum respeito às origens. Mostra como as grandes empresas do mundo atropelaram os pequenos produtores e tiraram deles não apenas a terra, mas também o entendimento de que o vinho é uma bebida natural, cuja produção deveria respeitar o clima e o solo, o terroir, enfim. Na prática, o cineasta busca mostrar que o vinho é um produto da fermentação da uva em condições absolutamente naturais. Óbvio? Nem tanto.

Jonathan Nossiter contesta, a partir da perspectiva de pequenos produtores, a excessiva regulamentação do setor, cujas normas rigorosas impedem, na maioria das grandes regiões produtoras de vinho, a elaboração da bebida, por exemplo, a partir de uvas não viníferas. A imposição é contraditória quando se observam as videiras a partir de uma perspectiva histórica. O vinho sempre foi uma bebida acessível, de poucos requintes, elaborada como ingrediente festivo e, em muitos casos, ritualístico (na Bíblia, por exemplo, existem cerca de 500 citações ao vinho). Mas perdeu essa simplicidade para se transformar num produto de apelos requintados, com negociações na bolsa de valores, a exemplo de tantos outros produtos.

O cineasta voltou a abordar o tema no igualmente polêmico documentário 'Resistência Natural', de 2014, quando focou suas câmeras nos pequenos produtores italianos que elaboram vinhos naturais, sem recorrer a produtos químico para apressar ou estabilizar o processo. Tentam se manter em meio a disputa desigual com os grandes players vinícolas, que se beneficiam de regulamentos e concessões. Enfim, são dois trabalhos que esclarecem muito sobre um mercado que vende ilusões.

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