Vinho não são todos iguais. Definitivamente, essa é uma verdade chinesa. Só é igual para paladares pouco afinados com a bebida – ou para aqueles que não fazem distinção entre alhos e bugalhos. Extraindo-se a brincadeira dessa introdução, resta a verdade sobre a diferença entre rótulos bons e aqueles muito bons. Ou seja: mesmo entre os vinhos que a média de iniciados considera 'de respeito', existem aqueles que reivindicam do paladar uma posição distinta.

Dia desses, num despretensioso encontro de amigos, sempre valorizado por boa bebida e comida ainda melhor, ingredientes indispensáveis para irrigar a conversa sem compromisso, acreditava ter subido o nível com um Carmen Gran Reserva, rótulo chileno que merece alguma reverência, o médico Carlos Ferri, a quem dispenso enorme respeito e carinho, surpreendeu-me com um Don Melchor. Sem dúvida, foi uma experiência muito particular: a surpresa e o vinho.

Don Melchor, rótulo da chilena Concha y Toro, foi o primeiro vinho iconográfico da América Latina, reproduzindo, em 1987, iniciativa de Robert Mondavi Philippe de Rothshild que quase duas décadas antes tinham lançado as bases dos vinhos ultra premium nas américas, com a produção do Opus One na Califórnia. O Don Melchor é um bem equilibrado blend de Cabernet Sauvignon com cabernet franc.

Em 1991 os argentinos apresentaram o Catena Zapata Estiba Reservada e os uruguaios também seguiram a tendência com o Prelude 1995, aproveitando a intensidade da uva tannat. Nesse período também surgiram no mercado dois rótulos que expressam a qualidade do terroir sul americano: o Almaviva, também da Concha y Toro em parceria com os franceses, e o Seña, da centenária Errázuriz

Catena Zapata também se associou aos franceses e apresentou o supremo CaRo (Catena & Rothshild). Nesta lista é importante acrescentar o Newen, El Principal, Le Dix de Los Vascos e o Noemia, considerado o mais caro vinho do continente. Produzido 100% com a uva malbec na região da Patagônia, na Argentina, custa em média US$ 180 (safras especiais custam o dobro disso).

CURIOSIDADES
AÇÚCAR, O ÁLCOOL E O VINHO

Para cada grau de álcool contido no vinho são necessários 18 gramas/litro de açúcar, obtida de forma natural durante a fermentação. Desse modo, para que o vinho contenha pelo menos 10°GL (escala Lay-Lussac), o vinho deverá ser elaborado com uvas contendo 18% (180 g/L) de açúcar. Quando não se obtém a conversão adequada de açúcar em álcool, em função de condições climáticas que não permitiram à uva alcançar a concentração adequada, é permitido acrescentar açúcar para obter no máximo 3°GL. Essa prática chama-se chaptalização (termo oriundo de Jean-Antoine Chaptal, químico francês que inventou o recurso), proibida em muitas regiões viníferas mundo agora. O Brasil também vai endurecer as regras para uso da prática a partir de 2016.

POR QUE 750ML?

Há diversas teorias para explicar as razões que justificam a adoção da medida 750ml para as garrafas de vinhos. A mais aceita inclui os ingleses nessa história. Como não adotavam o mesmo sistema métrico da França, de onde importavam grandes quantidades de vinhos pela medida 'galão imperial' (4,5 litros), os ingleses precisam encontrar uma embalagem capaz de garantir bom aproveitamento das barricas de 225 litros francesas (ou 50 galões imperiais). Meio por acaso chegaram às garrafas de 75 cl (750 ml) e ao cálculo: um barril é igual a 50 litros ou 300 garrafas de 750 ml. Outra teoria sustenta que esse tamanho (ou volume) era o máximo que um soprador de vidro conseguia chegar sem danificar os pulmões numa época em que o produto era feito artesanalmente.

A rolha é produzida da cortiça, produzida com a casca do sobreiro (carvalho da espécie Quercus suber), que predomina em Portugal, com 50% da produção mundial. A árvore também cresce na Espanha e no Norte da África. A primeira casca é obtida quando a árvore atinge 25 anos de idade. A casca pode ser extraída de 9 em 9 anos, geração após geração e a árvore pode ter até 200 anos de idade. A rolha de cortiça é usada pela sua permeabilidade, que permite ao vinho 'respirar' e evoluir dentro da garrafa. O surgimento de alternativas à rolha de cortiça criou na chamada 'cadeia suberícola', com desemprego e fechamento de empresas. Rolhas de vidro e de rosca
(screw cap) começam a ser amplamente usadas pela indústria de vinho.

Quero saber

Vlademir Soares envia mensagem e pergunta:

Sou um apreciador de vinho e participo, sempre que posso, de alguma degustação para aprender mais sobre a bebida. Nesses eventos sempre ouço a palavra 'tanino' e, apesar das explicações, ainda não entendi muito bem o seu significado. Poderia 'tentar' me fazer entender o conceito de forma simples, pois não tenho interesse algum em me tornar um 'enochato'.

Você não está sozinho nessa incompreensão. De fato, entender os componentes químicos naturais de um vinho, entre os quais se enquadram os taninos, não é tarefa fácil como faz supor os entendidos na bebida em suas palestras. Primeiro, é importante saber que os taninos estão presentes no caule dos cachos, assim como nas cascas e sementes. O composto interage com as proteínas presentes na saliva alterando sua composição e textura. A sensação que se tem é de adstringência na boca – e que a língua fica 'rugosa'. Duas outras informações importantes: quanto mais tanino no vinho, maior é sua estrutura e mais ainda sua capacidade de envelhecimento, pois o composto é antioxidante e preserva a bebida. No processo de descanso em carvalho ou outra madeira, o vinho também desenvolve mais taninos, pois as plantas possuem o composto. Os brancos também possuem taninos, mas são mais imperceptíveis no palato.

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