Bernardo Carvalho integra a quinta geração da família que há mais de um século produz vinho no Douro, em Portugal, uma das regiões vinícolas mais prestigiadas do mundo. Português de sotaque marcante, oscilante entre o esforço de parecer menos luso do que é para se fazer entender por uma plateia de brasileiros, o responsável pela comercialização e divulgação da secular Quinta Santa Eufêmia, cravada nas margens majestosas do rio Douro, foi enfático ao defender os vinhos lusitanos em recente degustação de clássicos Portos, especialidade da empresa: "fazemos o melhor vinho do mundo pela originalidade de nossas uvas".

A afirmação não é retórica de vendedor, pois está alicerçada na verdade defendida há séculos pelos portugueses, zelosos de suas mais de 250 variedades de uvas nativas, algumas poucas com alguma presença em outras regiões mundo afora, mas longe de expressar a verdade do solo nativo. Aliás, as vinhas crescem vistosas em todo o tipo de clima: da areia ao xisto, os parreirais prosperam beneficiando-se de microclimas diversos e sentido as influências benéficas ora do Mediterrâneo e do Atlântico, dependendo da localização da vinha no mapa. O resultado são vinhos absolutamente originais no aroma e sabor.

Essa história tem raízes remotas. Os primeiros parreirais teriam sido plantados no século 7, quando Portugal ainda era um feudo, o comitatus portaculenis, cujo modesto ancoradouro, o Portus Cale, seria conhecido muito tempo depois como Porto, uma das referências mais recorrentes do país. Essas reminiscências têm relação com os romanos, passam pelos Cruzados que passaram pela região rumo às sangrentas batalhas pela Terra Santa, que se abasteceram nas vinícolas e levam o produto Europa afora, e avança até o século 18, com assinatura de tratado entre Portugal e Inglaterra estabelecendo as bases comerciais do intercâmbio de vinho por lã.

Ainda no século 18 os vinhos portugueses ganham deferência especial com a criação da primeira região demarcada do vinho, o Douro, exatamente onde Bernardo e sua família cultivam vinho há mais de século. A decisão foi de Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como, Marquês de Pombal, título de nobreza aludido com frequência na história colonial brasileira pela forma como português tratava os jesuítas. A partir de então, mais precisamente 1756, nem a devastadora filoxera (veja box) impediu que os portugueses desenvolvessem consistente indústria vinícola baseada em castas autóctones, ou seja, nativas do país.

O QUE É?

Filoxera tipo de pulgão que ataca as raízes das plantas viníferas, abrindo espaço para o surgimento de fungos e levando a videira à morte rapidamente. Surgiu nos Estados Unidos em 1854 e chegou à Europa em seguida, devastando mais de 60% dos vinhedos das principais regiões produtoras. Acreditava-se que as uvas desapareceriam e, em consequência, o vinho.


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