Não é exagero atribuir a Robert Parker o poder de decretar o sucesso ou o fracasso de um vinho na velocidade de uma 'cheirada'. O nariz do crítico é um surpreendente instrumento de precisão, capaz, segundo ele, de lembrar detalhes de um vinho que experimentou há 10 anos. Não por acaso, diz a lenda, seu nariz está assegurado em US$ 1 milhão, valor a ser desembolsado caso fique impossibilitado de usá-lo.

Parker foi editor-chefe da poderosa The Wine Advocate, revista criada por ele em 1978 como 'o primeiro guia independente do consumidor'. A publicação serviu para que o crítico apresentasse seu sistema de pontuação, de 51 a 100, baseado, entre outros aspectos, no sabor, aroma, aparência, acabamento e potencial de mercado, hoje amplamente utilizado. Nos anos seguintes ao lançamento da revista, Parker se dedicou a esquadrinhar a produção de Bordeaux, na França.

Em seus comentários, atacava sem piedade ou constrangimento vinícolas e rótulos centenários, sustentando suas críticas em análises transparentes que chamavam a atenção exatamente pelo didatismo, sem afetações ou subjetividades. O Château Margaux 1973, por exemplo, foi descrito por ele como um vinho 'pobremente feito' e que deveria 'ser evitado', conforme registro da escritora Elin McCoy no livro 'O Imperador do Vinho'. Até então, o vinho era intocável e gozava de imensa reputação.

Mas Parker parecia disposto a estimular os produtores de Bordeaux a 'reinventar' seus vinhos – e a inscrever seu nome numa lista restrita de celebridades cujas opiniões eram ouvidas, lidas e repercutidas mundo fora. Até então, o grande nome da crítica nos Estados Unidos era Robert Finigan.

A virada ocorreria em 1983, quando Parker contrariou críticos consagrados e cravou que a safra do ano anterior era espetacular e 'entraria para os anais históricos de Bordeaux', como de fato aconteceu.

A opinião de Parker repercutiu e apressou seu reconhecimento como crítico, mas especificamente sobre esse episódio há controvérsias sobre seu julgamento, que teria se inspirado na opinião de um importante referencial da qualidade do vinho francês: Emily Peynaud, considerado por muitos o criador da enologia moderna e à época consultor das principais vinícolas de Bordeaux, que já teria comparado 1982 às lendárias safras de 1959 e 1961 antes de Parker publicar sua crítica. Há muitas controvérsias envolvendo o nome de Parker, inclusive suspeitas de que suas notas a determinados rótulos são proporcionais ao cachê que recebe. Independente disso, o crítico permanece como uma lenda e suas observações e pontuações repercutem como uma sentença, fazendo a glória ou o ocaso de vinhos mundo afora. Trata com descaso vinhos da América do Sul, sendo complacente com um ou outro rótulo. Sobre o Brasil, desconhece que produza vinhos.

SAIBA MAIS

Château Margaux é uma vinícola francesa, que posiciona seus vinhos em algum lugar inalcançável dos mortais comum – essencialmente pelo preço inacreditável que alcança seus rótulos mais 'modestos' (como se houvesse essa categoria no mundo surreal dos Premier Grand Cru Classé, uma categoria exclusivíssima de Médoc habitada por outra lenda, o Petrus).

No mundo dos destilados o nariz também é um instrumento de enorme utilidade – e alguns fazem dele um enorme sucesso. 'The nose' (o nariz) é como é conhecido Richard Paterson, cujo 'patrimônio' foi cotado em US$ 2,5 milhões. O mais famoso e premiado master blend de todos os tempos, responsável pelos destilados mais caros e venerados do mundo, Paterson tem um talento excepcional para extrair de uísques, por exemplo, seus aromas mais imperceptíveis, rivalizando-se com Parker nessa capacidade. Rum, conhaques, champagnes e até charutos cubanos já passaram pelo seu nariz em busca de um veredito sobre suas qualidades. Aos 26 anos, já com quase 10 de carreira, foi eleito o mais jovem master blend da Escócia, onde seu nome está associado aos melhores uísques.

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