A notícia de que 'vinho brasileiro é o quinto melhor do mundo' ganhou enorme repercussão e provocou surpresa entre os não iniciados no assunto que desconhecem, entre outras coisas, que o espumante brasileiro coleciona medalhas mundo afora numa infinidade de concursos. Esse foi apenas mais entre tantos títulos que a bebida nacional traz do exterior, reafirmando que o terroir nativo tem inequívocas vocação para a produção de espumantes

Mas ainda bebemos pouco vinho. Aliás, pouquíssimo. Estacionamos há anos no consumo per capita abaixo dos dois litros por habitante. Se subtrairmos dessa conta o chamado 'vinho de garrafão', a fatia dos vinhos finos encolhe ainda mais. O consumidor nativo, ainda que tenha evoluído o paladar nos últimos anos e, por extensão, prestado mais atenção nos rótulos nacionais, deixa-se seduzir facilmente pelo produto importado. Nada contra.

O aprendizado no mundo do vinho exige infidelidade, ou seja, a diversidade apura o gosto e amplia conhecimentos. Mas causa algum desconforto quando a percepção de que o vinho local é 'pobre em aromas e sabores', expressão que passa bem longe da verdade. A opção pela bebida ianque, muitas vezes, está mais associada ao esnobismo do que ao paladar supostamente refinado.

Na prática, isso significa que o vinho nacional é tão bom quanto aquele produzido em qualquer região produtora do mundo. Há controvérsias? Muitas. Refinar esse debate é evocar uma infinidade enorme de variáveis que não cabe neste espaço – e muito menos a polêmica que o assunto suscita, especialmente entre aqueles que ainda torcem o nariz para a bebida nativa. Preferem o rótulo importante, muitas vezes de baixa qualidade. Vai entender!

A qualificação dos rótulos nacionais começou com a adoção de práticas mais modernas na gestão de todo o processo produtivos – do plantio de variedade mais adaptadas ao clima e solo das regiões produtoras, passando pelas rotinas e equipamentos de vinificação até rotulagem e comercialização. A assessoria de profissionais reputados no exterior, como Michel Rolland, a quem a evolução da vitivinicultura nacional deve algumas pedras, também foi importante para que o produto nativo alcançasse repercussão internacional.

A proteção à indústria com a proibição das importações ajudou nesse processo de evolução nos anos de 1980, mas sofreria um revés na década seguinte quanto caíram as barreiras. O mercado nacional foi inundado por rótulos de qualidade duvidosa e na proa dessa invasão estava o inevitável Liebraumilch, vinho branco alemão comercializado no país em garrafas azuis.

Durante os anos 90, época em que o governo Collor abriu as importações para o Brasil, o país viveu um fenômeno que, segundo muitos especialistas, mudou radicalmente o mercado nacional de vinhos. É difícil alguém que já consumia algum tipo de bebida alcoólica naquela época, ou pelo menos que convivia com alguém que bebia, não ter tido contato com o vinho da garrafa azul. O Liebfraumilch, vinho branco de qualidade duvidosa fabricado na Alemanha, causou uma revolução de proporções inimagináveis no país.

É interessante lembrar que a ideia de engarrafar o Liebfraumilch em recipientes azuis foi uma jogada do importador de bebidas Otávio Piva, proprietário da Expand, que convenceu o fabricante do vinho a produzir garrafas naquela cor para enviar ao Brasil. Isso porque as pessoas tinham dificuldades em pedir o vinho pelo nome. A estratégia popularizou a pedidas: 'o vinho da garrafa azul'.

Por dois anos seguidos, em 1997/98, o vinho liderou as importações e consumo no país, transformando-se num surpreendente case de sucesso na área. O paladar se refinaria nos anos seguintes e um vinho nacional se destacaria: o Marcus James, da Cooperativa Vinícola Aurora, o primeiro rótulo nacional a passar por carvalho. Importante lembrar que o rótulo era exportado para os Estados Unidos desde a década de 1980 e ganhou fama entre os consumidores brasileiros ao ser servido em voos internacionai da Varig.

CURIOSIDADE

Em 2016, vinho da modesta, mais promissora vinícola Guaspari, de Espírito Santo de Pinhal, interior paulista, ganhou medalha de outro no Decanter World Wine Award, um das mais reputadas e influentes competições do mundo. O rótulo Vista do Chá 2012, de syrah, desalojou do trono uma fila de nobres vinhos europeus, incluindo franceses

Moscatel premiado

O moscatel da Casa Perini entrou na lista dos melhores vinhos do mundo de 2017 (WRW&S/Ranking Mundial de Vinhos e Destilados), divulgada todos os anos pela Associação Mundial de Escritores e Jornalistas de Vinhos e Destilados (World Association of Writers & Journalists of Wines & Spirits). Além disto, na classificação geral, o produto foi o melhor espumante da lista, que é elaborada a partir do conjunto de premiações nos melhores concursos do mundo, como International Wine Challenge (IWC) e Decanter Wine Awards na Inglaterra, La Mujer Elige na Argentina e Selectiones Mondiales des Vins no Canada, entre outros. Casa Perini está situada no Vale Trentino, em Farroupilha na Serra Gaúcha. Tem capacidade física para 16 milhões de litros e oferece mais de 90 itens de produtos derivados de uva

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