Como editor deste caderno, resisti a falar sobre charuto, mais um hobby que vício, por temer que culinária e vinho não resistiria alguma fumaça num mundo cada vez mais 'politicamente' intolerante com o fumo. Mas aceite-se ou não, o charuto é um elemento importante no mundo de aromas e sabores: participa como coadjuvante de momentos 'sociáveis' à mesa, lembrando que sacar um 'puro' e acendê-lo em algumas situações é criar um enorme embaraço. Mas o texto abaixo não se insinua como defensor do fumo e nem estimula seu consumo: reconhece seus malefícios, mas seria hipocrisia não admitir que o álcool igualmente provoca suas mazelas, mas é socialmente aceitável. Feitas essas considerações que traem certo incomodo com a ousadia, falemos de charuto.

Charuto, a exemplo do vinho, é um elemento do convívio social cercado de rituais que valorizam sua história, repleta de significados e curiosidades. Mas se o vinho não tem mais nacionalidade, uma referência a geográfica a referendar sua autenticidade, o charuto tem: é cubano e sobre isso não há discussão! Essa história começa no século 19, quando cuba ainda era uma possessão espanhola e produzia fumo em grande escala para abastecer a metrópole. Por decisão do rei Ferdinando VII, o charuto começou a ser manufaturado na ilha em 1821. Menos de duas décadas depois o país já liderava a produção mundial – em volume e qualidade. Contudo, a história dos charutos cubanos tem na revolução liderada por Fidel Castro em 1959 um importante marco divisor.

Com a estatização das fábricas e a criação da Habanos S.A, a empresa que controla a produção de charutos no país, o produto se transformou em importante fonte de renda do regime comunista imposto por Castro. E foi ele quem transformou o Cohiba na marca mais reputada (e cara!) do mundo. Oriundo da palavra Cohiba, nome dado pelos índios aos rolos de folhas secas que fumavam, o Cohiba foi criado em 1966, a pedido de Fidel Castro, para ser um presente dado por ele a chefes de Estado e autoridades internacionais. Até 1982 o Cohiba não era comercializado. Mas não foi apenas isso que contribuiu para transformar o charuto num mito. O Cohiba é um dos únicos charutos que passam por três fermentações, um dos processos importantes na preparação fumo, selecionado como nenhum outro para a elaboração do charuto. Seus principais tipos são os Coronas Especiales, Esplendidos, Lanceros, Robusto, Linea Siglo e Behinke.

Made in Brasil

Ainda que Cuba seja referência quando se fala de charutos, diversos outros países mundo afora e não apenas na região do Caribe, fabricam produtos de qualidade, o que inclui o Brasil. A Menendez & Amerino é uma dessas empresas. De sua fábrica na Bahia sai 80% da produção nacional. A fábrica foi fundada em 1977 pelo empresário baiano Mário Amerino Portugal e pela família Menendez, associada à produção dos lendários charutos Montecristo e H.Upmann até a tomada do poder em Cuba por Fidel Castro, que estatizou a indústria do país. Entre os produtos que a Menendez & Amerino produz, destaca-se o Dona Flor.

DESTILADOS: combinação perfeita!
Charuto vai muito bem sozinho acompanhado, claro, de uma boa conversa, até porque baforadas solitárias não é exatamente do que um apreciador de bons 'puros', como são chamados os cubanos, gosta. Mas nessa história costuma surgir uma discussão que permeia o consumo de charutos: qual bebida melhor se harmoniza com eles? Ainda não se tem uma resposta definitiva a essa questão, considerando que cada um tem seu gosto particular – por charuto e bebida.

Mas, afinal, qual o objetivo de combinar bebida com charuto? Simples: potencializar as sensações e o prazer estimulados por um e por outro. Nada diferente do que ocorre com a harmonização de pratos com vinho, que também busca um ponto de equilíbrio capaz de valorizar sabores distintos da comida e da bebida.

Ainda que o livre arbítrio seja uma regra na harmonização de charutos com bebidas, iniciados na arte se mostram inclinados a valorizar o conhaque e o vinho do Porto nesse ritual. Essas duas bebidas, com clara vantagem para o conhaque, estão entre as preferidas pelos apreciadores mais ' profissionais' de charuto. Contudo, se defende a combinação do 'puro' com grappa, a aguardente vínica italiana, uísque e até mesmo uma boa cachaça.


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