Participei de uma oficina de poesia na semana passada para ver se amacio o olhar. Até tenho a sensibilidade de chorar quando encontro uma coisa triste ou bonita, mas acho que tenho muito chão embaixo do pé na hora de escrever: me é difícil deixar a letra solta e fugidia. Por isso, até hoje, sempre botei uma palavra atrás da outra, acorrentando-as todas a seus significados e ordenações. Não as deixava correr ou brincar de roda, não as deixava voar.

Meu último poema antes dos que fiz nessa oficina é de quando eu acreditava na paixão como uma coisa de alma e não como uma reação fisiológica. Já vai tempo. Há muito que penso nela como um jato de feniletilamina correndo nas veias, há muito sei a adrenalina me gelando o estômago, a dopamina me fazendo sorrir. E isso tem prazo de validade. Distante, fecho os olhos com tranquilidade e afirmo que, em um tempo qualquer entre três semanas e um ano, tudo isso vai ter escorrido para fora de mim e eu vou continuar aqui, amena. Vivendo de amores calmos e sem paixão.

Eu achava que quem vivia assim, tão plantada ao solo, tão apegada ao costume da vida, jamais poderia escrever poesia. Só que acabou que escrevi uma e outra, e outra. Parecia que alguma doçura do passado se fazia presente de volta, exceto que tudo estava diferente: nenhuma delas falava de paixão ou amor. Paixão, para mim, como já disse, é fisiológica. De amor, eu já não falo. Mas não querer falar de amor diz tudo o que precisa ser dito sobre mim.

Pois não falar de amor deixa o amor meio interditado. Amaldiçoado tabu ou divindade que não pode ser tocada por mãos que sejam nuas ou sujas – e minhas mãos são demasiadamente nuas para tocar o amor. Apesar disso, eu o celebro em meu silêncio e na negação de seus préstimos. Eu o celebro por toda a extensão da minha pele, eu o celebro todas as noites.

E talvez eu também o acabe celebrando por trás de tudo que escrevo. Especialmente quando não tento falar dele: não falar de amor é minha melhor forma de amar. Desusar a palavra amor é o que me protege do amor mesmo, o mais profundo e rasgado, apaixonado e valente. Amando aos poucos, miudamente, me mantenho sempre amante.

Invocar a palavra amor tantas vezes me deixou vulnerável neste texto. Se me permite, peço cuidado. Entre nele em silêncio. Sente-se. Vou pedir um café para nós e podemos não dizer nada, concentrados que estaremos em ver como a água aquecida tira dos grãos sua essência sem fazer alarde. Veja como a água, já transformada, pinga. É só por amor que o café escoa. É só para não falar de amar que falei tanto de amor.

Thays Pretti é escritora, revisora de textos, mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (Lattes), cronista do caderno de Cultura do jornal O Diário do Norte do Paraná.

Participe e comente