"Que sei eu da solidão humana? Só alcanço minha tristeza com a perspectiva de passar uma noite, dita especial, sozinha"

Essa semana, pensei muito na solidão. Surgiu o risco de eu passar a virada de ano sozinha - eu, cachorras e gatas - e isso me deixou pensativa. Minha mãe vai ficar alguns dias em São Paulo com minha avó, mas não podemos deixar os bichos sozinhos. Então eu fico e cuido. Vou alimentar, vou proteger dos fogos de artifício. Será minha função nessa entrada de 2019. E não tenho problema algum com isso. Só não quero passar a noite da virada de ano sozinha. Superstição, talvez. Mas não quero.

Mandei uma mensagem no grupo em que estão meus amigos mais próximos para saber se alguém estaria na cidade nessa data e senti um pouco de pena de mim ao reler o que escrevi. Eu quero muito soar como uma pessoa forte e independente, assertiva, plácida, segura. Não sou assim. Sou a pessoa que não quer passar a noite de Ano Novo - que no fim é apenas uma noite como todas as outras - sozinha. Sou a pessoa que pede pelo alheio afeto por medo de encarar a solidão.

A solidão humana. A solidão da mulher negra. A solidão do homem negro. A solidão da mulher gorda. A solidão do idoso. A solidão da mãe recente. A solidão da mãe solteira. A solidão do homossexual. A solidão da mulher lésbica. A solidão da mulher de 30 e poucos anos em um relacionamento heterossexual à distância, sem filhos e sem intenção de tê-los. A gente carece de agrupar as solidões em pequenos grupos (de solitários) para ver se a solidão sozinha fica um pouco menor. Mas solidão não é compartilhável. Mesmo quando estou acompanhada, estou sozinha - e quando é que não estamos?

Apesar disso, nos agrupar em núcleos de solitários faz com que a gente consiga entender melhor o que há em comum entre a nossa solidão e a do outro. E o que difere. É um grande exercício de sensibilidade expor o tato para a dor do outro, assim, sem julgamentos, sem usar coisas grandes como a solidão que é natural de toda a humanidade. Porque a minha solidão sozinha é minha, só minha. Que sei eu da solidão humana? Só alcanço minha tristeza com a perspectiva de passar uma noite, dita especial, sozinha. Essa é a minha solidão humana. É com ela que eu devo lidar, não com outra, não com a solidão de toda a humanidade. É minha solidão sozinha que me dói.

E assim é com os outros também, lidando com suas próprias solidões. Ela pode morar no afastamento de amigas após casamento ou maternidade. Pode morar no distanciamento humano que vem com o envelhecimento. Pode surgir também da expectativa alheia de que uma pessoa seja forte pelo que ela representa, quando ela é só mais uma solitária vagando pela vida. Entender as solidões alheias - acho que também disso é que se trata a empatia.

(A quem interessar possa, não passarei a virada de ano sozinha. Minha melhor amiga vai estar na cidade. Fico feliz por podermos passar essa data sozinhas/juntas, entendendo e trocando sobre nossas solidões.)

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