HAROLDO MISUNAGA
Com os avanços da tecnologia muita gente deixou de ler "no papel" e passou a ler no computador ou melhor, no tablet. Não faço parte desse grupo tecnológico de pessoas. Ainda tenho que imprimir tudo, rabiscar com aquelas canetinhas fluorescentes e escrever nas bordas do texto. Como aluno de pós-graduação, essa rotina de ler-rabiscar-rascunhar-escrever é praticamente diária e em grande volume.

Por isso, sou frequentador assíduo de lojas copiadoras para imprimir os materiais que tenho que ler. Utilizo os serviços de uma dessas copiadoras aqui perto de casa, em que o próprio dono é quem faz o atendimento.

Dia desses, final de tarde e lá estava eu com meu pendrive para imprimir aquela quantidade imensa de textos das aulas. Conversa vai... conversa vem... e eis que entra na loja um rapaz todo sujo e maltrapilho:

- Moço, me dá um dinheiro pra eu comprar alguma coisa pra comer?

Levei um susto e fiquei preocupado com assalto - sim, infelizmente essa realidade (mendigos e assaltos) é recorrente no bairro onde moro. Respondi que só tinha umas moedas para pagar as impressões dos textos e que não tinha mais nada.

O rapaz olha para o dono da copiadora e faz o mesmo pedido. Eis que ele diz:

- Claro que posso te dar o dinheiro para comprar alguma coisa para comer. E se quiser, tenho algumas roupas ali naquela caixa que são para doação. Elas estão em bom estado e já estão lavadas. Pode escolher aquelas que gostar e levar, o que acha?

Os olhos do rapaz chegaram a brilhar de tanta felicidade!

- Ô moço, obrigado mesmo! Estava com fome e o senhor vai me ajudar! - agradece o rapaz.

O rapaz já ia em direção à caixa com as roupas para escolher algumas.

- Mas calma aí... - pondera o senhor.

Sem entender, o rapaz para em frente da caixa de roupas.

- Você está vendo esses papéis nessa caixa grande? - diz o dono da copiadora apontando para uma caixa muito grande, cheia de papéis amassados, plásticos de resmas de papel A4, caixas de papelão, pedaço de plásticos usados para encadernação etc.

- Sim, o que é que tem? - responde o rapaz.

- Preciso que você separe cada coisa - papel, plástico e papelão, e coloque nestes sacos de lixo - mostra o dono da loja segurando aqueles sacos plásticos grandes de lixo nas cores preto, azul e vermelho.

- Mas não sou teu empregado! - esbraveja o rapaz.

- Sim, eu sei. Mas você não quer que eu te ajude? Então... em troca, preciso da sua ajuda com esses monte de coisas nessa caixa.

- Mas você disse que ia me dar o dinheiro e as roupas! - esbraveja ainda mais o rapaz.

- Sim, e eu vou te dar o dinheiro e as roupas. Vou te dar 50 reais mais as roupas que você quiser.

O rapaz chuta a caixa de roupas, derruba a caixa grande no chão, esparramando tudo o que tinha dentro e sai correndo.

Atônito, fico sem saber o que fazer.

Tento ajudar o dono da loja com a bagunça mas ele diz: "pode deixar que depois eu arrumo".

Ele termina de imprimir meus arquivos e diz:

- Trabalho o dia todo, de segunda até sábado das 8h até 19h. Pago meus impostos. Tento sempre fazer o melhor para os meus clientes pois sei que a vida deles, que a maioria é estudante como você, é bem complicada. Com as pessoas que estão na rua é a mesma coisa. Sempre quero ajudá-las. Mas não posso dar essa ajuda de graça... ela custou alguma coisa para mim. E, se for de graça, as pessoas não dão valor. E vão querer ficar vivendo nessa moleza de pedir esmola para sempre. Por isso pedi para o rapaz separar o lixo. Ele é jovem, me pareceu saudável e poderia separar os papéis numa boa. É uma tarefa digna como qualquer outra. Eu, inclusive, faço isso todo dia antes de fechar a loja. Tudo na vida é uma troca equivalente.

Ele me entrega as impressões. Faço o pagamento e ele diz:

- Estar na rua nem sempre é uma opção. A gente sabe disso. Mas querer sair dessa vida, isso a gente pode escolher. Basta a gente querer!

Ainda atordoado, fui embora. Feliz. Aprendi mais essa com esse "sábio filósofo popular contemporâneo".

Haroldo Misunaga é professor universitário e doutorando em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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