Os assíduos desta coluna talvez tenham só estranhado o título acima, mas é provável que a frase atraia novos leitores justamente por causa do imperativo negativo, afinal, desobedecer às regras nem de longe é um comportamento típico apenas de crianças e de adolescentes. Todavia, é fato que, entre a maioria deles, infringir as normas causa um efeito quase prazeroso. E para nós, educadores, a disciplina é um dos maiores desafios que o jaleco nos impõe. Manter a meninada em ordem para que o processo de ensino-aprendizagem seja eficaz é difícil, mas não chega a ser impossível. O tema é delicado e não se esgotará somente neste artigo.

"De Piaget a Pinochet". Nunca me esquecerei do dia em que ouvi essa expressão pela primeira vez, vinda de um colega. Ele dizia que sempre entrava em sala pensando nos ensinamentos do renomado psicólogo, mas, dependendo do comportamento da turma, punha em prática os métodos do ditador. É claro que tudo isso não passava de uma piada entre professores, mas a brincadeira me fazia pensar em como alcançar o equilíbrio no momento de manter a disciplina entre meus alunos.

No meu tempo de colégio, meus colegas e eu tínhamos pelos nossos mestres um misto de respeito e medo. Em alguns casos, mais medo que respeito, confesso. Não me lembro de ter nutrido muita admiração por eles, talvez porque, naquela época, havia certo distanciamento entre nós. O fato é que éramos mais obedientes e somente uma minoria ousava a ponto de transgredir as normas. Quando isso acontecia, dá-lhe assinatura no livro preto.

Mas não acredito que sentir medo do professor tenha sido uma característica positiva da minha geração, da qual eu me orgulho. Esse sentimento não agregava à nossa rotina escolar, pelo contrário. Entretanto, o respeito pela figura docente, de certa forma, perdeu-se em meio aos direitos concedidos aos menores nos últimos anos. Em algumas situações, por exemplo, os alunos perdem a noção de tempo, de espaço e de personagens. É momento de estudar, mas acham que é hora de se divertir. Estão na escola, mas acreditam estar na sala da casa da avó. Querem se relacionar com o professor como se ele fosse o amigo do rolê. Crianças e adolescentes não são vítimas, mas essa confusão toda pode ser fruto de falhas na educação familiar. Além disso, há responsáveis por colégios que têm uma postura frouxa e aí o ambiente se torna um "salve-se quem puder".

Cada instituição de ensino - pública ou privada - tem a sua maneira peculiar de lidar com os excessos no comportamento dos estudantes. Conversas além da conta, atitudes inadequadas, falta de materiais e de uso do uniforme, atrasos, desrespeito aos colegas. Meninos e meninas que tratam o professor com desprezo, como se assistir à aula fosse um grande favor. Algumas dessas instituições são mais criteriosas na cobrança do cumprimento das regras, outras nem tanto. De qualquer forma, é preciso pensar se as sanções aplicadas estão surtindo efeito. Punições não têm função se não tornarem melhor uma pessoa. Minha experiência de vinte anos de tablado já me possibilitou acompanhar cenas que ilustram bem essa discussão. Recordo-me, por exemplo, de várias vezes em que pais inflamados, com a espada em punho, procuraram a direção para tomar satisfações, afinal, alguém havia ousado chamar atenção do seu filho. Logo o seu filho, aquela dócil e frágil criatura.

Pais e mães têm todo direito de confiar piamente na prole. Aliás, é até natural que façam isso. Entretanto, poucas atitudes são tão nocivas à formação de uma criança ou de um adolescente quanto a de um responsável que desautoriza um funcionário da escola na frente deles. Diretores erram. Coordenadores erram. Professores erram. Mas, antes de ter uma conversa esclarecedora, a família não pode jogar pedras na instituição à qual confiou seu filho, muito menos ensiná-lo a fazer o mesmo.

A psicóloga Rosely Sayão escreveu certa vez sobre a diferença entre "rigor" e "rigidez". Pais e professores rígidos apenas estabelecem regras e não se dispõem a discuti-las. O bom mesmo, para as partes envolvidas, é que haja o rigor. O diálogo existe, mas o combinado prevalece. Educador algum, em sã consciência, defende a volta do autoritarismo que reinava décadas atrás, quando os alunos não tinham vez nem voz. Eu não desejo que os meus sintam medo de mim. Mas o respeito pela figura do mestre e por sua autoridade em sala de aula não pode fazer parte apenas das nossas lembranças de infância.


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