O resultado da cúpula entre Donald Trump e Kim Jong-un pode afetar as alianças tradicionais dos EUA na Ásia e fragilizar a arquitetura de segurança que prevaleceu na região nas últimas décadas, avaliam analistas. Além disso, declarações do presidente americano minam a política de "máxima pressão" sobre a Coreia do Norte e abrem a porta para China e Rússia relaxarem sanções sobre o país.

Há quase um consenso entre especialistas de que Trump fez concessões unilaterais e excessivas à Coreia do Norte, sem receber em troca compromissos específicos sobre a redução de seu arsenal nuclear. Na entrevista após o encontro, o americano anunciou que suspenderá os exercícios militares com a Coreia do Sul, uma antiga demanda de Pyongyang que não estava na declaração que ele e Kim assinaram. Trump também levantou a possibilidade de retirar os quase 80 mil soldados que estão no Japão e na Coreia do Sul.

"Que o governo tenha concordado em suspender os exercícios militares EUA-Coreia do Sul, aparentemente sem informar Seul ou ter qualquer coisa significativa em retorno, poderá erodir a confiança de nossos aliados e de emergentes parceiros de segurança na Ásia", observou Jonathan Stromseth, do Centro John L. Thornton, do Brookings Institution.

Além da Coreia do Norte, o grande beneficiário da decisão é a China, afirmou Ryan Hass, do mesmo centro de estudos. "A China gostaria de ver a redução das forças militares no nordeste da Ásia e o aumento da distância entre EUA e seus aliados. Pequim está no caminho de conseguir esses objetivos com baixo custo."

Richard Haas, presidente do Council on Foreign Relations, escreveu no Twitter que Trump foi infeliz ao se referir aos exercícios militares como uma "provocação", mesmo termo usado pelo regime da Coreia do Norte. "Também é perturbador que ele tenha falado em retirar tropas dos EUA sem referência à redução da ameaça militar convencional da Coreia do Norte."

Na mesma entrevista, Trump mostrou tolerância com o fato de a China ter reduzido o controle sobre o comércio na fronteira com a Coreia do Norte, o que foi interpretado por analistas como a abertura de uma fresta na política de sanções impostas no ano passado. Os EUA podem manter suas barreiras, mas isso não fará muita diferença se a China, que responde por 90% do comércio da Coreia do Norte, voltar a negociar com o país.

O principal objetivo de Kim era obter legitimidade internacional e ser tratado da mesma maneira que o presidente da maior potência global. Trump foi além do protocolo e repetiu elogios ao ditador, que é acusado de uma série de violações de direitos humanos. "Ele é um cara engraçado, muito inteligente e um grande negociador", disse o presidente.

Antes de embarcar para Cingapura, Trump havia abalado as relações com o Canadá, ao chamar o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, de "desonesto" e "fraco". O ataque foi uma reação à declaração do premiê de que as tarifas sobre aço impostas pelos EUA eram "insultantes" por serem justificadas pela necessidade de defesa da segurança nacional. Vizinhos, os dois países têm um longo histórico de cooperação militar.

Mesmo com as limitações da cúpula, a situação atual é melhor que em 2017, quando os EUA ameaçaram atacar a Coreia do Norte. O sucesso de Trump, porém, só será conhecido em um futuro indefinido, quando o compromisso com a desnuclearização for testado na prática, observaram Victor Cha e Sue Mi Terry, do Center for Strategic & Internacional Studies. "Até que inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica estejam de volta à Coreia do Norte, suspendendo operações, vedando edifícios e instalando câmeras de monitoramento, a cúpula terá nos tirado do caminho da crise, mas não terá nos deixado necessariamente mais seguros." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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