Quando o diretor Guilherme Leme Garcia e a produtora Aniela Jordan começaram a definir as canções que pontuariam o musical Romeu & Julieta, o resultado prometia ser uma deliciosa colcha de retalhos, dada a variedade de opções. O espetáculo, no entanto, ganhou o tom original quando o tradutor e adaptador do texto de Shakespeare, Gustavo Gasparani, fez a sugestão mágica: por que não usar apenas canções de Marisa Monte? O que parecia ser uma perigosa limitação revelou-se, na verdade, uma mina de ouro - afinal, a peça que estreia nesta sexta-feira, 10, no Teatro Frei Caneca, exibe uma trilha sonora que parece especialmente composta para ela.

"São letras que tratam do amor na medida certa", observa Gasparani que, ao trabalhar na versão ao lado de Eduardo Rieche, incluiu entre as falas os versos amorosos de Marisa. O segredo da perfeita fusão está no poder da compositora em organizar sínteses, um trabalho sem fronteiras definidas entre o erudito e o popular. E era justamente esse o desejo do diretor Guilherme Leme: criar um caminho aberto entre o presente e a trama de amor juvenil, que se passa nos anos 1500, como já fizera Antunes Filho em 1984, quando apresentou uma empolgante montagem de Romeu & Julieta recheada com canções dos Beatles.

"Eu sinto claramente que essas músicas não são mais minhas, elas fazem parte da vida de muitas pessoas, de histórias vividas por outros em situações e lugares muito além da minha presença física", disse Marisa ao jornal O Estado de S. Paulo em março, quando o espetáculo estreou no Rio. "Nesse caso, ver as canções se cruzando com a história de personagens fictícios, num clássico de Shakespeare é, para mim, uma sensação inédita, que me toca de uma maneira diferente e única que ainda nem sei explicar, mas que já adoro."

O resultado é esperado: em muitas sessões, o público desponta como um coro improvisado ao longo das 25 canções. Afinal, o espetáculo abre com Um Só, que ilustra a apresentação do ambiente e dos personagens, e termina em forte tom operístico com A Primeira Pedra, quando a intransigência das famílias rivais provoca a morte dos dois jovens amantes. A direção musical do produtor Apollo Nove promove a adequação necessária à dramaturgia.

O elenco também apresenta uma espécie de fusão - se o intérprete de Romeu, Thiago Machado, ostenta já uma sólida carreira, consagrado como um dos melhores atores do musical brasileiro, a jovem Bárbara Sut traz um inédito frescor ao viver Julieta. Aos 22 anos, ela gosta de lembrar que, na escola, interpretou um papel menor, o da Ama, que cuida e protege Julieta. "Eu não tinha o perfil para ser a protagonista", contou ela à reportagem, em março, no Rio. Por perfil, leia-se negra. "Itália medieval, uma Julieta negra - é um papel que sempre pensei ser inacessível para mim."

O resultado é uma entrega completa, com Bárbara exibindo uma tocante emoção que contrabalança com a empolgação trazida por Thiago Machado, impressionante ao viver o jovem que acredita firmemente em sua paixão. "Ele simboliza o homem moderno, que se coloca acima de rivalidades sem fundamentos."

Detalhes contemporâneos compõem a estrutura do espetáculo. "O ponto de partida é uma atemporalidade, mas não podemos fugir dos hábitos e costumes da época em que se passa a história", observa Ícaro Silva, que ostenta uma interessante androginia para compor Mercuccio, um dos principais amigos de Romeu, cuja lista de parceiros se completa com Benvoglio, vivido por Bruno Narchi.

ROMEU & JULIETA
Teatro Frei Caneca. Shopping Frei Caneca. R. Frei Caneca, 569. 5ª, 19h. 6ª, 20h30. Sáb., 16h e 20h. Dom., 19h. R$ 50 / R$ 200. Até 21/10


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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