O personagem interpretado por Woody Allen tem seus quarenta e poucos anos, com o cabelo desgrenhado e camisa clara, e encarna, embora não saiba disso, um momento decisivo na trama de "Manhattan" (1979), filme que é considerado, por muitos, sua obra-prima, todo gravado em preto e branco. A personagem de Mariel Hemingway, uma sensual estudante de 17 anos, está diante dele e sinaliza a vontade de trocar os Estados Unidos por Londres. Quer que partam juntos, que tentem uma nova vida em solo estrangeiro. Ambos são namorados, e Woody Allen reconhece a importância que isso pode significar para ela: estudar teatro e música na terra de Shakespeare é a melhor estratégia que uma jovem aspirante a atriz pode cobiçar. Mas ele não está interessado em deixar Nova Iorque.

O casal está sentado em um lugar que é, ao mesmo tempo, sereno e agitado. Um clima bem à vontade, num momento aparentemente banal. Há garçons passando entre mesas, pessoas em segundo plano se servindo, e Woody Allen sustenta a conversa, combinando seus tradicionais tiques neuróticos com a fala serena, diante daqueles verdes olhos que hipnotizariam e desarmariam qualquer ser humano.

A decisão, de repente, parece tomada: vão se separar, não há o que ser feito, é preciso seguir adiante, cada um na sua, e só na última cena do longa, o personagem de Woody Allen tomaria consciência do erro absurdo que cometeu. Tudo, de repente, vem à tona: não há nada pior do que o arrependimento. E somos todos levados, abruptamente, àquela mesa em que Mariel sinalizava o plano de partirem juntos.

Woody Allen poderia ter ambientado essa cena em qualquer lugar. Num passeio no Central Park. Na saída do Metropolitan Opera, depois de conferir Puccini ou Verdi. Numa esquina qualquer de Upper West Side. Dentro do Guggenheim, diante dos quadros de Chagall, Kandinsky, Mondrian. Mas ele resolveu ambientar a cena decisiva de um de seus principais filmes dentro de uma restaurante bem tradicional, daqueles que oferecem uma ótima comida a preço amigável, a John's Pizzaria, localizada na Bleecker Street.

Não é apenas porque a pizza é uma das marcas culturais dos norte-americanos que o cineasta tomou a decisão de ambientar, ali, aquele diálogo épico. É porque nas pizzarias, ainda mais do que em pub's ou churrascarias, sorveterias ou cafeterias, há um clima radicalmente diferente, tomado por diversas manifestações de amor.

Nunca há desavenças nem quebra-pau quando duas ou mais pessoas se reúnem em volta de uma pizza. Nunca há ódio nem rancor, agonia nem desespero: apenas amor. Uma das hipóteses, muito defendida por pizzaiolos locais, é a completa inexistência de pessoas que detestam a iguaria. Ninguém sabe explicar ao certo essa total aceitação da pizza. Helder Cruz, da Della Pizza, nunca ouviu falar de gente assim. "Todo mundo gosta", admite.

Mas ele tem suas técnicas para chegar à aceitação total. Em sua pizzaria, gosta de incrementar receitas com produtos que nem todo mundo se apropria. São os casos do doce de leite Viçosa, do legítimo Catupiry, do cream cheese Philadelphia e do parmesão que vem direto do Uruguai. Assim, cada fatia de sabor de sua pizzaria nunca se assemelha às demais. Ali, a pizza de churros leva mussarela, canela, açúcar refinado e o insuperável doce de leite Viçosa. Um tipo caprichado de parmesão, que sempre vem do Uruguai, faz toda a diferença na pizza de frango cremoso, composta por molho, mussarela, frango em pedaços, bacon crocante Sadia e cheddar. O cream cheese Philadelphia dá um novo tom à Della Pizzaiolo, que leva, também, molho, mussarela, palmito e champignon.

Se Woody Allen se arrepende de sua decisão amorosa na pizzaria de "Manhattan", os maringaenses, diante do cardápio da Della Pizza, se arrependeriam de não poder provar tudo de uma só vez, explorando receitas exclusivas da casa. Diferentemente de Woody Allen, o arrependimento não é doloroso: basta voltar num próximo dia e regalar-se com as outras alternativas. Sempre é tempo de prosear com pizzas.

PARA COMER
DELLA PIZZA
Onde: Av. Joaquim Duarte Moleirinho, 3569, Jardim Itália
Quando: terça a quinta e domingo: 18h30 às 22h30. Sexta e sábado: 18h30 às 23h30.
Onde: Av. Mandacaru, 2034, Sala 7, Jardim Real.
Quando: segunda, quarta, quinta e domingo: 18h30 às 22h30. Sexta e sábado: 18h30 às 23h30.


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